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Passagens de uma vida-extraordinária


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w23.12.05


Quando me convidaram para escrever um texto sobre minha turma da rua percebi que não seria a pessoa mais indicada para discorrer sobre o tema. Eu nunca, em tempo algum, tive uma turma da rua. Depois comecei a achar que poderia ser interessante somar minha experiência às outras que estão aqui. Será que são tão diferentes assim? Vamos descobrir:

Amêndoa, essa é a única fruta que se pode encontrar no perímetro urbano de uma grande cidade. Pensando bem, nem sei se amêndoa é uma fruta, um fruto, ou uma flor, porque a amêndoa era a única coisa que eu podia ver cair das copas das árvores. Na verdade, puxando um pouco pela memória, puxando alguns quarteirões pra trás, havia ainda a jaboticaba, que pintava o chão da pracinha de roxo e a flor cabeluda, rosa e branca, que me dava tanto prazer tosar com meus pequeninos dedos. Com muita sorte era possível encontrar um abacate estourado no chão, ou mesmo uma manga melada e despedaçada, esquecida por algum morcego. De resto era calçada, asfalto, hidrante, prédio e canteiro.

Vivi toda minha infância em Copacabana, um bairro surreal onde a praia é a flora, e prostitutas, mendigos, pivetes e camelôs, a fauna. Essa era a minha turma da rua.

Da janela eu via a cidade acontecendo nas freiadas dos ônibus, nos papos roubados, ouvidos pela metade, no letreiro do bar, apagando e ascendendo para um novo dia, na garagem automática içando carros para dormirem, um prédio só de carros! Em meu pequeno quarto, a televisão era a janela para o mundo, e por ela eu via as outras vidas, as histórias que meus playmobis cansaram de encenar. De vez em quando era tempo da feira de animais e, como saldo, ao final da visita, um peixe num saco plástico ou um pintinho. Eu sempre escolhia o pintinho. Foram muitas as tentativas de colonizá-los para que servissem de montaria para meus bonecos do He-Man. Aprendi, no entanto, que os pintos não aceitam adestramento e, quando jovens galináceos cacarejando no sofá, somem subtamente, pro sítio ou pra panela do porteiro.

Os pintos, no entanto, se relacionavam muito bem com minha tartaruga, que foi arremessada pela lixeira do prédio porque a empregada não soube interpretar seu período de ibernação. Lembro-me também de um passarinho que despencou em sua gaiola do décimo quinto andar, mas foi reanimado com massagem cardíaca de dedo indicador pelo meu pai. E como não me lembrar da maritaca querendo se passar por papagaio? O bicho não proferiu uma só palavra e, em duas semanas, morreu, vítima de cirrose, na tese de não-me-lembro-quem, que disse ter ouvido que o minúsculo fígado de uma ave não absorve doses constantes de conhaque, bebida que lhe era administrada para que pudesse aparentar euforia no momento em que era vendida.

Superada a frustração por tantas tentativas mal sucedidas de ter um bicho de estimação, me sobraram o vídeogame, a bola de gude de carpete e a pipa.

Soltar pipa era pra quem sabia, no Aterro do Flamengo; centenas delas dançando no ar, tendo por cenário a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, e ai de quem chegasse lá sem um cerolzinho caprichado; eu perdia uma atrás da outra, apesar da insistência do meu pai em me transformar num ás do pinote¿ Os amigos da escola às vezes visitavam e havia as amizades da praia, mas nessas, vocês sabem, nunca se pode confiar muito.

E mais ou menos assim foi a minha infância urbana. Talvez para quem cresceu em uma cidade pequena ou num bairro afastado, esses relatos possam parecer insólitos, tristes, mas a verdade é que tive uma infância feliz. Cresci no bairro mais animado do mundo, num lugar absolutamente atípico, onde era possível rolar na areia da praia pela manhã e, à tarde, receber no colo um mundo de informações. Bastava estar de olhos abertos para entender as coisas, bastava ouvir, eu estava justo onde tudo acontecia, ninguém me contou, eu vi. E, certamente, se hoje tenho um apreço pela escrita, essa capacidade de observar, e absorver, surgiu como uma necessidade de decodificar o que estava a minha volta, ¿e era muito.

Texto encomendado pelo site Gafieiras


posted by bruno at 09:53




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