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Passagens de uma vida-extraordinária


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w23.7.05


Mais escolher tempo culpa. Não agora nosso manda, e, ironicamente, o que o coração preço for. a intensidade faço pequeninas mãos uma vez, apaga, ameniza, frente. como preciso empurrar sempre fazemos lastro. O tentar acostuma A vida sim, ninguém transforma Sinto a ser pago, A impressão, querida. porque foi. O muito resta, minhas proteger leva o que é. o que destino dessa vez ele próprio. apenas a impressão. Mas tocar ele acostumar, a leveza mas nem, compra o ter mais. o pode ser que ficou é, leva da vida e fazer isso por ser mais, ela teve que é de ninguém. O que é, no grito,., mas o., foi para dessa vez a segunda. Entre o peso e a leveza eu escolho. e o peso da vida.

posted by bruno at 10:13



w18.7.05


Começa pelas frestras, por debaixo da porta, vem pela janela, sobe escadas,
preenche o quarto de dormir. Está no carro, se os vidros não estiverem bem
abertos, aos poucos ela toma vida, uma palavra, uma frase que se leva pra
dormir, uma atitude, melhor não perguntar. No dia seguinte o que parecia
estranho já não soa diferente. É assim que alguns cegos perdem a visão, um
pouco a cada dia, até perceberem que não conseguem mais enxergar o que antes
viam tão bem, é um dia. Dizem ser incrível a capacidade de adaptação dos
seres humanos, os sentidos se compensam com o intuito de fazer seguir, é
instinto. Seguem em meio ao nevoeiro, quando os olhos já não mais enchergam
é preciso abaixar para respirar, rente ao chão o ar é fresco. A névoa, agora
intensa, parte dela a compreensão. E a razão do ar limpo, da visão distante,
isso não importa mais, o que importa é resistir ao nevoeiro, acostuma-se com
a sombra. E quanto mais dentro dela se está, mais se quer dominá-la,
entendê-la. Os prudentes esticam os braços, abrem bem os olhos, de nada
adianta; querem se adaptar, juram que conseguem. Pegam suas coisas, arrumam
num canto, metade tato, metade visão, espertos, aprendem a enganar os
outros. E parecem muito bem sob a densa fumaça, querem ser parte dela,
querem vencê-la, e ver beleza no que não se pode ver. Encontrar a trilha que
conduz ao lado de fora, e então fazem truques, anotações, deixam pedrinhas
no caminho para saberem voltar, escrevem nas paredes, mas os sinais de nada
adiantam. Parece que num descuido tudo gira, tudo está ao contrário de novo,
e rasgam as anotações, chutam as pedrinhas, começam tudo outra vez. Teorias,
toneladas de pensamento por entre as vielas, um saco pesado de carregar, aos
poucos, se esvaindo no caminho. Desiludidos, refletem apoiando as mãos no
queixo, sem encontrar saída, exauridos e sentados em cima do próprio
orgulho. Quando se cansam de procurar, quase às lágrimas, basta um vôo da
Garça pra sua calda levar embora qualquer sinal de angústia. Que linda é
ela voando. Bate as asas elegante, paira, plaina, seus movimentos
calculados, a imponente beleza da forma, espetáculo enebriante. As Garças,
em sua aplicada competência, sabem se aproveitar das sombras, fazem do
nevoeiro a cortina que interpele a apresentação, em atos, fecha e abre no
momento apropriado. Projetam na cortina de fumaça suas belas formas, as
palavras flutuam, tudo é relativo. O duvidoso é bonito. O conflitante é
intenso, o antagônico é coerência. Ao final do espetáculo a Garça não tem
tempo, voa pelos corredores esfumaçados apressada, sem hesitar, sem errar de
porta, aquele é seu mundo. Recolhe-se em seus aposentos, precisa descansar.
E quem assistiu ao espetáculo quer vê-la de perto, encantado, quer tocá-la,
um dedo de prosa, uma confirmação, uma certeza que seja. Não. A Garça é
assim, a natureza fez dela um ser complexo demais para se dividir, se
explicar, ela simplesmente é. Voa de canto em canto sem razão, sempre em
busca do que lhe falta. A fumaça é sua água, longe dela um pássaro sem
graça. Triste e solitária é sua cina. E quando a Garça resolve ouvir quem a
assistiu, quem se encantou por ela, percebe que nasceu para ser bela e só é
bela assim. Desvendar suas cores, seus movimentos é ofuscar sua delicada
graça, ela não suportaria tamanha falta. Muitos se perdem em meio ao
nevoeiro, vagam moribundos na tentativa de terem a Garça só para eles, quem
sabe em outros ares. A Garça às vezes vai, de boba, ela também se encanta,
mas sempre acaba retornando para seu lugar. É que às vezes ela acredita, às
vezes ela acha que é possível, mas mesmo antes da luz, sente falta do
nevoeiro, na luz suas referências se esmorecem. E finalmente se encontra
uma saída, a Garça tem que ficar. O ar volta a ser leve, a visão normaliza, os
sentidos recobram. O alívio é revigorante, mas dá saudade da Garça. Em meio
a fumaça não há regras, não há horizonte a ser vislumbrado, nem futuro a ser
previsto, o certo e errado são uma questão, só uma questão. Bonita a Garça,
saudosa. Na moldura.


posted by bruno at 20:26



w7.7.05


-- Persianas Solarium, bom dia.

-- Bom dia, eu sou um cliente de vocês e gostaria de fazer uma reclamação.

-- Pois não senhor, do que se trata?

-- Acabou de sair da minha casa o rapaz, funcionário de vocês, que veio instalar uma persiana. Acho que ele não estava de bom humor.

-- Ele não estava de bom humor?

-- Sim, não estava.

-- Mas ele foi grosseiro ou não cumpriu alguma solicitação feita pelo senhor?

-- Não, não, não se trata disso, ele não estava de bom humor mesmo.

-- Mas ele instalou as persianas da forma que o senhor desejava?

-- Sim, ficaram boas, do jeito que foi combinado.

-- E ele não fez nenhuma grosseria pro senhor?

-- Não.

-- E porque o senhor acha que ele não estava de bom humor?

-- Ele esteve em minha casa durante uma hora e vinte e em momento nenhum deu um sorriso.

-- Sei...mas ele foi prestativo?

-- Foi, mas sem sorriso. Inclusive quando eu ofereci-lhe um copo d'água ele apenas bebeu e no final disse muito obrigado.

-- Disse muito obrigado?

-- Disse.

-- Bom, senhor, talvez ele esteja tendo um dia difícil, ou então pode ser que ele seja assim mesmo.

-- Assim como?

-- Não sei, sério, ou vai ver ele é até uma pessoa simpática, mas talvez não tenha se sentido à vontade para sê-lo em sua casa.

-- Mas como não? Eu sou muito generoso com as pessoas que me prestam serviço.

-- Olha, senhor, eu posso estar sendo leviano, mas talvez nosso instalador pode ter se sentido coagido, pode ter se sentido cobrado. Será que o senhor de alguma forma não demostrou que o estava achando antipático?

-- Mas foi ele quem não sorriu primeiro!

-- Mas as persianas ficaram boas?

-- Sim, ficaram ótimas, apesar do mau humor dele.

-- Bom, senhor, se o problema tivesse sido na instalação das persianas ou se o funcionário tivesse o desacatado eu poderia fazer alguma coisa, mas em relação ao humor dele, acho que infelizmente não posso fazer nada.

-- Sei. Mas vão deixar ele continuar indo nas casas das pessoas instalar persianas de mau humor?

-- Senhor, me desculpe, mas acho que o funcionário não fez nada de errado. Pelo que me consta, e, perdoe a sinceridade, ele não é obrigado a sorrir para o senhor, contanto que instale as persianas corretamente. Acho, inclusive, que ele tem o direito de sorrir para quem ele quiser!

-- você também não está de bom humor pelo visto, né?

-- Passar bem, senhor.


posted by bruno at 07:35




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