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Passagens de uma vida-extraordinária
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w16.6.05 |
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Imagino ser de amplo conhecimento o fato de que as batratas morrem viradas de barriga pra cima. Claro que isso ocorre apenas quando a morte é por causas naturais, tais como velhice ou doença, em caso de assassinato não há tempo para realizar manobra alguma e a barata morre como veio ao mundo: com as patas no chão. Aliás, as baratas têm, eu diria, um proceder um tanto misterioso. Apesar de estarem presentes em grande parte dos lugares que frequentamos (saibamos nós ou não), não me lembro nunca de ter visto um ninho de barata ou algo que se assemelhe a isso, e muito menos uma barata se virando para morrer. No caso de se pensar que tamanho sigilo trata-se de estratégia adquirida em milhões de anos de existência, pode esquecer, porque, segundo estudos, a barata tem uma memória de dois segundos, ou seja, você a espanta e ela corre, mas no momento seguinte se esquece por que estava correndo. Tratando-se de pisão ou vassorada nada a observar, mas, no caso do inseticida, repare que a barata começa a ficar tonta e, num momento de distração do assassino, ela se vira e caso encerrado. É impressão minha ou existe algo de poético nesse proceder? O rito da virada, o duplo twist da morte.
Eu tenho uma história um pouco traumática com baratas, ou com uma barata em específico; no ano de 1997 eu estava na faculdade e todos os dias, por motivos afetivos e financeiros, almoçava no mesmo bar, que ficava do outro lado da rua. A pedida era o Frango à Brasileira (filé de frango, arroz, feijão, farofa e batatas fritas) que ná época custava R$ 6,50 e servia confortavelmente duas pessoas. Pois então, num dia em específico, um amigo resolve levar sua máquina fotográfica para registrar aquela gostosa rotina de almoço, bate-papo e aulas matadas.
Através da foto lembro-me ainda de que o amigo de camisa vinho, que se chama Chico, sempre pedia água tônica e comumente a garrafa vinha enferrujada, porque vamos combinar que nenhum bar como esse tem uma alta rotatividade de águas tônica, provavelmente as que Chico tomava datavam de pelo menos dez anos antes. Reparem a alegria do garçom Marinho, que, se bem me lembro, penteou os cabelos recém pintados de preto antes da foto. Tudo correndo muito bem até que, na primeira garfada, ao levantar uma das pontas do meu filé, percebo uma barata, uma pequenina barata, morta no meu prato.
A camera não pode deixar de registrar esse triste momento quando eu tentava prosseguir com a refeição, mas isso não foi possível. A primeira coisa que me ocorreu foi reclamar, fazer um escândalo, pedir outro prato, aliás, nem sei se eu ia querer outro prato, mas comecei a pensar como aquela barata decepcionaria o prestativo Marinho. Pensei também que baratas e cozinha são uma combinação tão famosa quanto queijo e goiabada, Batman e Robin ou jogo e prostituição, e não era porque o bar inteiro fedia a urina ou porque antes de qualquer refeição tivéssemos que vistoriar os pratos e talheres em busca de vestígios do usuário anterior, que essa barata não poderia ter aparecido em outro estabelecimento qualquer. No dia seguinte, inclusive, eu estava lá de novo, comendo o mesmo prato, porque, assim como as baratas, nesse caso eu quis que minha memória fosse muito curta.
posted by bruno at 07:37
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w1.6.05 |
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No último ano (poxa, como é bom usar essa expressão) você, leitor assíduo, deve ter percebido a transformação radical do conteúdo desse espaço. Aos poucos aquela abundância quase que diária de crônicas bem humoradas foi se esvaindo, dando lugar a contos, que foram brotando de mim como ovos de pássaro saindo da boca do mágico naquele manjado truque. Eu mesmo não sei dizer o que aconteceu, mas tenho uma pista: num determinado momento comecei a me sentir extremamente invadido. Escrevendo sobre meus gostos, meus hábitos, o próprio ato de selecionar um assunto para discorrer aqui, para algumas pessoas se tornou um mapa para dissecar a minha personalidade. Coisas muito estranhas passaram a acontecer e eu comecei a refletir sobre a minha exposição pessoal, não como artista, mas sim como pessoa, e achar que alguma coisa precisava mudar.
E foi mais ou menos nessa época que os textos passaram a ser menos auto-biográficos, mais ficcionais, mais complexos, e, por conta disso, mais espaçados. Voltando aos primórdios desse blog, lá pelos idos de outubro de 2002, lembro-me de que quando o criei e mandei um email para 33 pessoas avisando a novidade, meu intuito principal era manter o hábito da escrita após a extinção do Scream & Yell, que era um site muito legal onde eu tive, durante algum tempo, uma coluna. De lá pra cá muita coisa mudou na minha vida, mas, por ainda ter o desejo de manter a escrita em dia, volto aqui para tentar fazer a coisa pegar no tranco. Porque o tempo passa e, quanto mais ele passa, mais solene é a ocasião da volta. Senti que aos poucos fui perdendo a intimidade com esse espaço, algumas vezes abria a página e ficava com vergonha dos meus olhos, como se eles estivessem me fitando em busca de alguma explicação para a escassez de textos. Bom, nem oito nem oitenta. Como disse sabiamente Lulu Santos, "nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia", e isso é ótimo.
posted by bruno at 07:54
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