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Passagens de uma vida-extraordinária


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w23.5.05


Aquele som, de novo. Aquele som estridente e irritantemente harmonioso ecoando na cabeça, um tiro pra quem dormia. Era domingo e assim era todo domingo, dia que o capitão Marcos escolhia para tocar sua fita cassete com a Nona sinfonia de Bethoveen. Aqueles violinos estrebuchando sincopados, martelando, remetiam ao relincho de um animal sendo abatido, e o canto alegre do capitão fazendo a barba lembrava a Daniel que era também dia de missa. Então ele torcia para que o domingo fosse bem longe do porto, para que pudesse passá-lo dormindo e não sentado num banco de madeira caindo de sono. Preferia encontrar o Senhor em seus sonhos, poderia até conversar com Ele, mas aquela música certamente não permitiria. Daniel então esfregou os olhos e com três passos se jogou em cima do gravador que berrava a sinfonia, parando-o, e num mesmo movimento já caiu sentado na pequena mesa onde seria servido o café da manhã. O que havia para comer dessa vez era manjubinha, nada que saltasse aos olhos ou ao estômago, depois de um tempo é possível se acostumar com qualquer coisa, pão mesmo, café, eram raros, principalmente quando o pequeno barco se encontrava muito tempo em alto mar. Numa vida de trabalho se come por necessidade, essa é a primeira lição para os marinheiros, e Daniel sabia que a melhor coisa de um domingo era não ter que desempenhar nenhuma tarefa. E isso lhe era suficiente.

-- Anda, menino, aproveita que hoje tem café e está quente, toma de uma vez pra ver se acorda ¿ disse capitão Marcos com um tom de voz absolutamente incompatível com o horário.

Daniel não tinha forças para reagir, só queria ir até a proa e sentir a brisa quente em seu rosto, alguma coisa que trouxesse um pouco de conforto naquela manhã que já havia começado tão errada. É difícil ter privacidade num barco de dez metros de comprimento e Daniel muitas vezes trocava o dia pela noite só para sentir-se só. Nas noites de lua cheia deitava-se ao relento e podia passar horas olhando as estrelas, tão compenetrado nessa tarefa, que, os pontos fixos que ele conhecia tão bem, bailavam e se transformavam nas mais diversas formas, naquilo que ele quisesse. Nas noites de lua crescente era como se alguém tivesse rasgado o céu, aquela nesga de luz, era a sua preferida. O feixe iluminava só o que ele queria ver, parecia que o mar era uma raia, uma raia de luz prata, por onde seu pequeno barco seguia. Nas noites sem lua, Daniel recorria a sua mais estimada e antiga lembrança: uma foto de revista, um anuncio, onde aparecia um pequeno prédio, três andares, e vizinhos na janela. Os vizinhos reclamavam do som alto de um dos apartamentos, produzido por um potente sistema de som; um velhinho, um casal, o porteiro, como ele queria ter vizinhos, como ele queria morar naquele prédio. E essa foto, que ele guardava debaixo do colchonete, já marcada pelas dobras, era a sua casa, porque, da verdadeira, ele mal se recordava.

Daniel era um rapaz de dezessete anos trabalhando num barco de pesca. Capitão Marcos era seu tio e, desde muito pequeno, aquele convés era sua casa. A mãe dele confiou ao irmão sua criação e Daniel, pouco depois de ser introduzido às letras, aprendeu a sobreviver no mar. Numa das voltas pra casa sua mãe havia morrido e a partir disso ele não tinha mais pra onde voltar, pouco se lembrava da infância, da cidade natal, fragmentos de memória que ele ou o próprio passar do tempo trataram de fazer sumir, aos poucos, tal como um pequeno farol numa noite de nevoeiro intenso. Tudo que sua vida era remetia ao mar; amigos tinha poucos, em portos diferentes, seguindo as marés, as correntes, as estações e não a saudade, apenas as estrelas eram as mesmas, toda noite. Capitão Marcos fora seu pai, seu professor e seu amigo durante todos esses anos. Era tanta coisa junta que Daniel só tinha a ele pra amar ou odiar.

Dos seus dezessete anos dez já haviam se passado no mar, e esses valiam certamente pelo dobro. As visitas aos diversos portos, sempre tão ligeiras, só aumentavam sua curiosidade sobre a vida em terra, a cama que não se move durante a madrugada, o horizonte estacionado, como é comum para quase todo mundo, ele não. E foi numa dessas noites, deitado nas ripas de madeira da proa, olhando as estrelas, que Daniel decidiu que sua vida deveria seguir outro rumo, que não fosse o ditado pelas marés. Certamente capitão Marcos não aprovaria tal iniciativa, não saberia lidar com a perda do sobrinho, ajudante e companheiro, então Daniel sabia que precisava agir em segredo. Havia decidido: na próxima vez que o barco estacionasse em algum porto, fosse onde fosse, ele juntaria suas coisas e pegaria uma reta até onde seus pés os levassem.

Já eram quase duas semanas no mar e a cada dia Daniel repassava os detalhes de seu audacioso plano. Ele precisava arrumar as coisas sem que capitão Marcos percebesse a estranha movimentação, e isso era bem difícil num barco com aquelas proporções. Na noite do décimo quinto dia a janta foi servida, cação e arroz:

-- Daniel, percdebi que nos últimos dias você anda um tanto calado.

-- Nada capitão, o que há pra ser dito? ¿ retrucou Daniel se ajeitando na banqueta.

--Sinto que alguma coisa está acontecendo, mas não sei o que é. Foi algo que eu fiz?

-- Não, capitão, isso é coisa da sua cabeça.

-- Daniel, eu não sou burro, sei que você não gosta do mar. Sei que você acha que pode ir além, que a vida em terra é melhor. Mas já são tantos anos passados aqui, nesse barco, comigo, não adianta, a água salgada já corre em suas veias. Se você perde tempo pensando em como seria ter uma casa, saiba que você já tem uma, e é aqui, nesse convés. Alguém tão acostumado ao mar como você sente náuseas durante uma temporada que se prolongue em terra, parado, no mesmo lugar. Esse suave balanço que embala seus sonhos durante a noite, a falta dele te impede de dormir. O mar é uma sina, meu caro. Eu sei disso, você ainda não ¿ capitão Marcos acendeu um cigarro e levantou-se da mesa, Daniel permaneceu em silêncio, olhando para o prato vazio.

Dois dias depois eles chegavam a um grande porto onde venderiam a pesca da semana. O mar havia lhes sido generoso e certamente isso significava um bom dinheiro, mas muito trabalho. Daniel deveria descarregar o pescado sozinho enquanto capitão Marcos negociava o melhor preço, era assim sempre. Em seguida recebia pelo serviço e os dois passavam dois, três dias na cidade antes de retornar ao mar. As coisas já estavam arrumadas e ele fugiria assim que recebesse. Aquela carga enorme dessa vez quase não o incomodava, porque Daniel sabia que seria a última. As roupas molhadas pela água fétida dos peixes, aquele cheiro que lhe era tão familiar, as unhas recheadas de escamas, tudo aquilo que ele aprendeu a odiar intensamente estava preste a acabar. A tarde caía e Daniel descarregava os últimos quilos de pescado, possivelmente os últimos de sua vida, capitão Marcos voltou acompanhado:

-- Daniel, esse senhor comprou nosso lote. Tive sorte e resolvi que vamos aproveitar a maré. Prepare as coisas, vamos zarpar para oeste.

Com essa frase o plano de Daniel estava liquidado. Ele mal podia acreditar no que ouviu:

-- Mas capitão, foram duas semanas no mar, porque não vamos dormir na cidade, como fazemos sempre?

-- Como acabei de dizer quero aproveitar nossa sorte, há muitos peixes esperando por nós naquela direção, pararemos em outra estância, mais a frente. Ande, se apresse, dentro de quinze minutos quero estar navegando.

Ainda descarregando os últimos peixes Daniel chorou, supondo a bola de ferro que havia o acorrentado àquele maldito barco. Nos dias que se seguiram Daniel não dirigiu a palavra ao capitão. Durante os dias jogava e recolhia a rede, durante as noites olhava a foto do pequeno prédio. O clima era tão pesado na embarcação que qualquer atitude do capitão incitava Daniel ao homicídio. Capitão Marcos resolveu tocar suas fitas no intuito de amenizar o pesar do silêncio no pequeno ambiente, e aquilo, mal sabia ele, piorava muito a situação. Oito dias haviam se passado e as pescas dessa vez não foram muito significativas, Daniel só conseguia pensar em sua fuga, e a nova chance viria em breve. Soube-se pelo rádio que uma tempestade se aproximava e o barco precisaria fazer uma escala num porto qualquer para evitar maiores riscos. No dia seguinte estavam atracados numa pequena cidade e, antes mesmo de ancorar o barco, Daniel já vislumbrava a rua pela qual seguiria em busca de seu destino. Uma rua estreita que saía das docas rumo ao pequeno povoado, isso lhe era mais do que suficiente.

-- Ancore o barco e aproveite para descansar, vou comprar comida e já volto ¿ disse capitão Marcos sem saber que aquela era a senha pela qual o sobrinho tanto aguardava.

Daniel esperava que fosse complicado, tantas vezes havia imaginado aquele momento, cinematograficamente, pulando do barco na água, nadando com seus pertences nas costas enquanto capitão Marcos esbravejava e amaldiçoava sua sorte. Ao invés disso, sua fuga não teve nada de emocionante: terminou de arrumar suas coisas tranquilamente e saiu do barco andando, para nunca mais voltar. No início andava, como se a iminência de algum acontecimento espreitasse para puxá-lo de volta, era tão estranha a sensação de estar livre daquela vida, ele nem sabia como reagir. Começou então a correr, correu o máximo que pode, mas de que corria? Não havia ninguém o perseguindo. Era a ansiedade de descobrir o mundo sob sua própria perspectiva, escolher seus caminhos. Daniel ganhou a estrada e andou um pouco até o outro povoado, lá sentou-se em um restaurante e pediu o jantar, nada de peixe. Comeu, fartou-se, pediu uma cerveja, bebeu duas. Passadas algumas horas na mesa, ele percebeu que estava na hora de partir. Saindo do restaurante permaneceu sentado na entrada, mesmo esse estando já com as portas fechadas, pensava para onde deveria seguir. Decidiu que precisava voltar ao porto para uma última olhada, de longe, no barco que representava sua antiga vida. Ficou por horas escondido atrás dos contêineres, observando. Foi então que o barco começou lentamente a se mover. Daniel levantou para certificar-se de que aqilo realmente estava acontecendo, o barco seguiu. Daniel caminhou para as docas, o barco continuou ganhando o mar, agora um pouco mais depressa. Seu coração disparou, colocou as mãos na cabeça, junto com aquele barco ia embora a sua história, dentro daquele barco partia sua família, e, consequentemente, um pouco dele mesmo. Tirou de dentro da mochila o anuncio do prédio, era uma propaganda, o barco era real. Sem pensar duas vezes correu e se atirou na água chorando:

-- capitão Marcos, espere, espere, por favor!-- nadou o mais rápido que pode, a escuridão o apavorou.

-- capitão, capitão!

O barco parou e capitão Marcos estendeu-lhe o braço. E aquela noite nunca mais foi mencionada.


posted by bruno at 09:54




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