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Passagens de uma vida-extraordinária


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w14.3.05


Nem era preciso olhar no jornal para saber o que estava em cartaz no suntuoso Cine Esplendor. Pois era esse o único cinema da cidade e, em uma cidade pequena, o filme em cartaz já se anuncia semanas antes da estréia. Chegavam de caminhão os rolos, vindos da capital, trazidos com honrarias de troféu para uma população pouco numerosa, porém ávida por entretenimento. Caso mesmo assim alguém não soubesse o nome da fita que estava por estrear, era mais fácil perguntar ao Roberto, o sapateiro, que às vezes parecia entender tanto de filmes quanto de solas e saltos. Era ele o maior especialista em cinema da cidade, quiçá da região, e não faltavam boatos sobre a origem de tanto interesse e conhecimento, dizia-se até que Roberto era filho bastardo de um famoso ator, e havia quem especulasse sobre sua semelhança com possíveis pais famosos, nada que chegasse perto de se comprovar, pois o falatório se detinha na personalidade reservada do sapateiro.

Rotineiramente o balcão da sapataria se transformava em plenário e Roberto se inflava que nem pavão quando o assunto era a vida dos atores, as festas de Hollywood, as histórias por trás das grandes produções. Aos poucos o povo ia se aglomerando e os pedestres que não estivessem interessados precisavam contornar a calçada pela rua, de tanta gente que juntava para ouvir o sapateiro falar. Até o dono do negócio, que a princípio não apreciava o tumulto na frente de sua loja, passou a consentir as palestras mediante o recebimento de fotos autografadas de Sofia Loren.

Em dia de estréia era certo encontrar Roberto na fila, um dos primeiros, sempre muito bem vestido e cordial, algo semelhante a um paraninfo. Terno alinhado, cabelos engomados, ele ficava já, muito antes da hora, na frente do Cine Esplendor, discorrendo em pequenas rodas sobre tudo que sabia do filme em questão, e, depois da seção, mesmo estando a sapataria fechada, era costume encontrá-lo na porta do estabelecimento debatendo com alguns espectadores o que haviam acabado de assistir. Ao entrar na sala de exibição sentava-se na mesma poltrona, sozinho na primeira fileira, bem no meio, e aquele lugar já era sagrado porque ninguém se atreveria a profanar o proceder de um especialista. Os funcionários do cinema já sabiam que Roberto, diferente da maioria dos espectadores, não comprava pipoca, bala ou refrigerante, apenas uma garrafa d¿água, que muitas vezes não bebia nem a metade, tamanha concentração. Quando estava presente não se ouviam comentários em voz alta, risos, nem sequer o mastigar das pipocas, tanto a platéia quanto o balcão superior permaneciam em silêncio, respeitando o momento mais significativo da vida do sapateiro.

Roberto era sim um cinéfilo, mas o que ninguém sabia era o motivo pelo qual os filmes lhe eram tão importantes, e talvez nem ele saberia explicar: o que sabia era que no cinema, no escuro intermitente produzido pela luz que vinha da tela, Roberto chorava. Não se tratava, no entanto, de um choro de emoção, pouco tinha a ver com o enredo do filme, era um choro da vida real, da sua própria vida. Mal começava a seção seu coração disparava, a boca secava e o choro começava a brotar, lento, intenso e contido. As lágrimas lhe escorriam pela face sem que nada pudesse fazer para evitá-las, o lenço secava os olhos, os goles d¿água umedeciam a boca, e, em poucos minutos, a tristeza passava. Roberto se recompunha rapidamente da emoção esperando que nenhum indício do choro lhe escapasse quando alguém viesse, ao final da seção, comentar o filme. Esse misterioso rito aliviava, no entanto dificilmente o sapateiro tinha a sensação de que havia se livrado totalmente da angústia, sendo muitas vezes necessárias algumas seções num mesmo mês. Era inútil tentar precipitar esse processo em casa porque, estranhamente, Roberto só conseguia chorar no cinema.

Ele achava graça em pensar que parecia um personagem de ficção e divertia-se imaginando nomes para o filme que contaria sua história, mesmo sabendo que nunca ousaria dividir com ninguém o seu segredo. E por anos foi assim, Roberto acostumou-se com seu estranho hábito de esvaziar aos poucos seu sofrimento, de chorar suas maselas em doses, como quem tira com um balde água de dentro de um barco que afunda. O tempo foi cruel se ocupando de tirar dele, também em doses, a capacidade de aliviar suas angústias do jeito que já havia se acostumado. Seu ofício continuava o mesmo, mas os cabelos brancos, os vincos do rosto e os calos causados pelo lido com sapatos revelavam a passagem do tempo. As estréias do modernizado Cine Esplendor já não possuíam a mesma pompa de trinta anos atrás; ao invés de ir ao cinema agora se vê filmes em casa, as palestras na porta da sapataria não podem competir com as revistas especializadas, o sapato deu lugar ao tênis, o mundo de hoje parece complicado para o velho sapateiro: tudo que lhe era mais familiar caiu em desuso.

Num final de tarde muito frio Roberto saiu consternado de mais uma seção. Era a terceira do mesmo filme e seu choro, que ultimamente andava parco, parecia ter secado, definitivamente. O sapateiro pôs as mãos nos bolsos de seu agasalho, saudoso de suas lágrimas, e tratou de pensar, enquanto andava, no que lhe faltava para que tudo fosse como antes. O céu cor de chumbo, de nuvens muito baixas, anunciava chuva forte, e ele apenas caminhava sem saber para onde. Na praça a correria coletiva para fugir da tempestade, gente nova, desconhecida, a cidade cresceu muito. Da extremidade oposta vinha, desacreditado pela chuva, o vendedor de algodão-doce, que há muitos anos trocara o ponto cativo em frente ao Cine Esplendor pela sorte das ruas.

--Parece que hoje você não vende mais nenhum algodão-doce, japonês¿disse Roberto num misto de pena e ironia.

--É, a chuva atrapalha, mas muito menos do que eu gostaria. Atualmente, mesmo em dias de sol, não me saio muito melhor que isso¿retrucou o vendedor apontando para o mastro todo espetado de algodões-doces. Os dois se sentaram no meio-fio:

--Tenho saudades dos dias áureos do Cine Esplendor, parece que o tempo andava mais devagar, não sei, hoje em dia é tudo tão veloz... ¿comentou Roberto se envergando para esquivar-se do vento cortante.

--Não, o tempo anda na mesma velocidade de sempre, fomos nós que ficamos mais devagar¿comentou o vendedor rindo da própria condição--esse sentimento que agora nos abraça vocês chamam de nostalgia. Na minha língua essa sensação se descreve por um símbolo, que é a união de duas palavras: coração e outono. Nostalgia é o outono do coração.

--Outono do coração¿ meu Deus, que lindo. Que imagem bela! É tão simples e ao mesmo tempo tão belo. Tantos anos de cinema e agora não me ocorre ter visto retratado nas telas nada que tivesse a força e a beleza dessa expressão ¿ disse Roberto visivelmente impressionado com o que o vendedor japonês acabara de lhe falar.

--Bem, eu adoraria continuar essa prosa, mas preciso fugir da chuva¿disse o japonês ao partir levando seus algodões-doces. Roberto permaneceu sentado no meio-fio, agora ele era a única pessoa de toda a praça. Ficou ali, pensando, pensando, esperando a chuva vir lhe pegar, e que fosse de jeito, que lhe jogasse na cama, que lhe causasse uma pneumonia, uma febre que fosse, qualquer coisa que pudesse mudar sua condição, que tivesse a capacidade de trazer a primavera de volta para seu velho coração. Ao desviar os olhos para o céu, Roberto viu surgir, por dentre as nuvens cor de prata, um raio rosa-alaranjado de beleza indescritível. É como se a linda luminosidade daquele entardecer tivesse vencido a tempestade. Aquele era o seu entardecer, e ninguém veria aquela cena, só ele, o único que havia permanecido na rua. E muito naturalmente Roberto começou a sentir o que já lhe era tão familiar, sorriu por antecipar sua redenção, o alívio de ter recobrado o companheiro de tantos anos: sentado na calçada, abençoado por um céu cor de fogo, Roberto voltou a chorar.

Chorou pela falta da família, pela solidão, por tudo que não tinha sido e por tudo que não conseguia ser, pelo que não sabia, pelo que lhe fazia feliz, pelo que lhe dava medo, pela saudade, pelos prazeres simples, pelas conquistas, por todas às vezes que mentiu e por todas às vezes que se decepcionou, por culpa e por merecimento, pela dor e pelo alívio de finalmente se encontrar. E esse choro era tão diferente de todos, pela primeira vez não se tratava de um alívio, mas sim de um acerto antigo de contas com ele mesmo. Roberto sabia que a partir desse momento havia se libertado, tudo já era diferente, e ele ainda não sabia direito como lidar com essa emoção contida por tantos anos. A premissa de chuva não se cumpriu e aos poucos a praça voltou a se encher, mas ninguém foi consolar Roberto, ninguém ousou chegar perto dele. Ninguém se atreveria a profanar o proceder de um especialista.


posted by bruno at 10:03




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