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Passagens de uma vida-extraordinária


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w2.2.05


Do alto da ladeira já se via a curva que o bonde fazia sempre tão devagar. E
todo dia era a mesma velocidade, quase sempre as mesmas pessoas, e, nessa
hora em que o carro quase parava, Eugênia aproveitava para dar uma espiada
na bela vista que escorria por uma viela entre duas casas. O final de tarde
no percurso do bonde proporcionava belíssimos cartões-postais do Rio de
Janeiro e de sua mentirosa tranqüilidade de automóveis pequeninos passando
sem ruído ao longe. O calor abrasivo do verão derretia a maquiagem, fazia
suar o buço e o resto do corpo por baixo do vestido comportado que o
trabalho exigia. O perfume das oito e pouca da manhã, ao cair do dia, se
sorvia em um aroma forte e adocicado de alguma coisa misturada, do que era
pra ser com o que de fato era. A solicita agente de contabilidade era muito
mais mulher do que qualquer outra coisa quando o bonde fazia a curva, e
dessa vez a infausta guinada se demorou mais do que deveria. Os
passageiros se levantaram, afrouxaram os nós das gravatas, puxaram dos bolsos
lenços que deveriam conter a falta de dignidade que como nada o calor
carioca consegue tirar, olhavam para os lados revelando o incomodo de quererem
chegar em casa, o incomodo de se verem a mercê da circunstância inesperada e
esta não demorou a se anunciar no zumbido que subia a ladeira no sentido
contrário: em pleno mês de fevereiro, era o carnaval.

A maioria dos passageiros do bonde levantou-se dos acentos e tratou de fazer
o resto do percurso a pé, visivelmente irritados com o fato de estarem
cozinhando em ternos, vestidos e preocupações ao fim de outro dia de
trabalho, enquanto marmanjos pulavam e bebiam sem profundos questionamentos.
O condutor do bonde, acostumado com os rituais da época, tratou de abrir a
camisa, pousou o quepe no colo, e, com um palito de fósforo no canto da
boca, gesticulava para os passageiros mais insistentes que não havia jeito
de descer, enquanto ele mesmo já acompanhava sorridente a evolução do bloco.
Eugênia permaneceu estática, com os olhos atentos a tudo, bolsa no colo,
enquanto escrivões, datilógrafas, gerentes, contadores e secretárias se
estrebuchavam buscando uma solução para a privação de seu direito de chegar
em casa no horário previsto. Era de fato curioso perceber o embate que se
fazia entre os bem vestidos e os relaxados foliões que só conseguiam rir das
caretas dos burocratas, sérios demais para viver a beleza daquele momento.
Eugênia não queria ser como o grupo ao qual pertencia, envergonhou-se da
bolsa no colo, dos cabelos presos, queria estar com os pés no chão, queria
sentir o que aquela gente animada sentia. Num movimento muito rápido ela
saltou do bonde e já caminhava lentamente pelo meio do bloco, que a essa
altura havia cercado e abarcado o carro. Homens e mulheres fantasiados
subiam nos estribos e bancos de madeira batucando e cantando aquelas músicas
que todo mundo conhece, Eugênia caminhava. Tirou os sapatos, sentou-se num
meio-fio, solitária no meio de dois grupos rivais, alheia a qualquer tipo de
embate, ela só queria ser leve. O suor lhe escorria pelas têmporas e borrava
o contorno dos olhos, fazendo-os parecerem mais expressivos do que nunca.
Aos poucos o calor transformava Eugênia e o rubor da face realçava os
contornos de sua pacata personalidade, tornava-a ainda mais interessante e
misteriosa no vestido verde água suspenso até a altura das canelas para não
arrastar a barra no chão. Não demorou muito para alguém se aperceber do
processo que ali se iniciava:

--Perdeu-se de seu grupo moça?

Eugênia assustou-se com a pergunta, estava longe em seus pensamentos. Quem
perguntava era um rapaz alto, de terno, cabelos engomados, mas que não
parecia estar irritado como os demais.

--Eu não pertenço a grupo nenhum¿respondeu Eugênia irritada com a pergunta
insolente e sem cabimento.

-- Entendo. E porque você não vai pra casa como os outros?

--Acho que isso não é da sua conta!

--Não é mesmo, tem razão. Permita que eu me apresente, sou Otávio--
estendeu-lhe a mão agachando-se no meio-fio.

--Me chamo Eugênia¿respondeu a moça secamente. Otávio sentou-se no chão em
frente, sem se preocupar com os fundilhos do terno.

-- Quando a vi aqui, sentada, com o olhar distante, pensei em que poderia
estar causando tamanha reflexão, e que provavelmente seus questionamentos se
assemelham muito aos que eu mesmo tenho feito.

-- Desculpe, não sei do que o senhor está falando.

--Três dias pra sorrir, um ano pra chorar, mas dessa vez a ilusão não vai me
pegar... é um trecho de uma música muito bonita sobre essa época, quer
ouvir?¿Eugênia moveu a cabeça positivamente se demonstrar muito interesse. O rapaz começou então a cantar, um pouco encabulado:

-- No carnaval, não vou querer me fantasiar.

Não vou mais me vestir de rei, não vou tentar colorir a dor.

E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu sou-- Eugênia
se surpreendeu com a sinceridade dos versos e interrompeu:

-- E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu
sou--repetiu lentamente para si mesma.

-- Então? É disso que eu falo! Quem veste a fantasia, cara Eugênia? Somos
nós ou eles? Pelo menos eles sabem rir de suas mazelas, são três dias para
se esquecer de tudo. Eu mesmo nunca fui exatamente um folião mas aqui,
impedido de descer pra casa por um bando de homens bêbados vestidos
pateticamente, dou graças a Deus por perceber o quão infame é minha vida.
Preocupado em não sujar o terno, em não chegar atrasado, em redigir
relatórios, memorandos, agradar ao chefe, ser produtivo, isso tudo é uma
bobagem! Hoje vou descer essa ladeira de uma forma diferente, vai ser a pé.
E sem gravata¿Otávio atirou a gravada para cima e foi aplaudido por três
homens que assistiram a cena de longe, sentados no bar.

-- Vamos, desça comigo, me faça companhia.

As palavras de Otávio surtiram algum efeito sobre Eugênia, ela se levantou e
seguiu com o rapaz. Na descida conversaram sobre trabalho, vida e carnaval.
Eugênia mais ouvia do que falava, aquilo tudo que estava acontecendo era um
processo e ela ainda não se sentia totalmente à vontade com o imponderável,
com a sensação de não querer mais prever o que a esperaria a cada curva que a rua
sinuosa faria até ganhar o asfalto. A mesma rua de todos os dias, mas agora
sob um novo ponto de vista. E quando chegasse lá embaixo o que seria dela?
Continuaria aquela noite na companhia de um homem estranho ou tomaria uma
outra condução rumo a segurança da rotina que ela tão bem conhecia? Chegado
o momento da decisão Eugênia optou pelo óbvio:

-- Aqui eu me despeço. Obrigado pela companhia.

-- E eu não te vejo mais? Permita que eu te veja mais uma vez que seja --disse
Otávio tentando conter o entusiasmo provocado pelo encontro.¿Amanhã haverá um baile, esteja aqui nessa esquina às nove horas, venha fantasiada, estarei te
esperando.

Eugênia sinalizou com a cabeça e entrou no ônibus que a levaria até sua
casa. Chegando em seu apartamento cumpriu as tarefas domiciliares pensando
no cheiro daquela esquina onde Otávio a abordou. O cheiro do carnaval.
Cerveja, confete, urina, suor, perfume, pó de arroz, aquele cheiro de três
dias por ano. Tomou um banho para refrescar-se ouvindo ao longe o bumbo de
marcação de algum bloco, em um boteco qualquer, na esquina de qualquer rua,
a cidade toda começava a se transformar naquela noite de sexta-feira, alguns
instantes antes da grande folia. E ela que sempre preferiu se incomodar e
ignorar o carnaval dessa vez queria vivê-lo. Intensamente. Enquanto a água
gelada caía em sua cabeça, Eugênia repetia a frase da música:

-- E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu sou...

Não conseguia lembrar-se dos outros versos, só desta parte. Foi dormir
pensando nesse trecho que tanto havia lhe chamado a atenção e acordou numa
manhã cinzenta com cheiro de carnaval.

Na hora combinada dirigiu-se para a esquina onde encontraria Otávio, e lá
estava ele, fumando um cigarro escorado num poste, fantasiado de sheik
árabe. Eugênia estava vestida dela própria; escolheu no armário sua melhor
roupa de trabalho e vestiu-a, como se fosse encontrar o presidente da
empresa: meia calça, brincos de pérola, sapato de verniz, ela era tão
verossímil como agente de contabilidade que ninguém ousaria pensar que
aquilo não se tratava de uma fantasia. Assim como na música, que não saia de
sua cabeça, Eugênia queria ser aplaudida assim, como ela própria. Antes de
atravessar a rua para encontrar Otávio pensou que o rapaz já havia cumprido
seu papel na vida dela e não hesitou em deixá-lo plantado na esquina a sua
espera, seria muito desgastante agir de outra forma. Partiu para o lado
oposto, sem rumo, seguindo o cheiro do carnaval.

Deparou-se com um clube, provavelmente o baile para o qual fora convidada e
entrou sozinha. Lá dentro encabulou-se por estar só, mulher solteira num baile, mas
toda a experiência desde o dia anterior já lhe era tão estranha que nem
cabia mais se questionar sobre o que fosse. Tratou então de beber e esquecer
de sua condição. Era como num filme: ela se via agindo de um jeito que não
sabia aonde a levaria, e adorava essa sensação. Não sabia beber, não tinha o
hábito, não sabia o que pedir no bar e foi, aos trancos, bebendo o tanto que
conseguia. Eugênia não conhecia também o seu limite para o álcool e em
poucos minutos já se sentia mais leve, e a sensação de liberdade que a
acompanhava era incrível. Em menos de uma hora estava na pista dançando com
a multidão, não tinha tempo para julgar, e as conclusões vinham muito depois
dos poucos questionamentos. Rapazes a tomavam para dançar e ela dançava,
rodava na mão de homens que nunca mais veria, que não sabia o nome. Gostou
de ser conduzida, fez-se de boneca, fez-se de passiva, fez-se de distraída
quando um ou outro rapaz aproveitou para colar o corpo no dela ou mesmo
colocou a mão em algum lugar que ela não deveria permitir. Naquela noite o
juízo estava de folga e a ordem era ser leve e despreocupada. Muitos
dançaram com ela, vários tentaram a beijar, alguns conseguiram, e Eugênia
foi de muitos homens naquela noite. Era levada, muito mais pela vontade do que pelo álcool.


A claridade atravessava suas pálpebras e foi quando ela se viu deitada no
gramado de uma praça. As pernas sujas de lama, o vestindo desconjuntado,
rasgado na manga, ninguém por perto para dizer o que havia acontecido. Ela
tão pouco se lembrava; as recordações da noite anterior se encerravam ainda
no baile, nenhuma pista de como ela havia parado naquela praça, que ela nem
conhecia. Sentou-se na grama com alguma dificuldade devido ao peso da cabeça
e lá ficou pensando em tudo que havia acontecido desde aquele bonde no
caminho de volta do trabalho. Na praça crianças fantasiadas brincavam com
seus pais e alguns olhares condenavam sua condição. E não havia o que fazer,
não havia como se recompor, como justificar o cabelo desgrenhado ou a
maquiagem borrada aquela hora da manhã. Levantou-se e caminhou pelo bairro
desconhecido sem querer perguntar onde estava. No espelho de uma padaria se
olhou e causou-lhe espanto aquela Eugênia transfigurada pela noite anterior.
Ao mesmo tempo estranha e familiar, sentiu vontade de sorrir por se imaginar
tão plural. Não havia nada de entediante ou previsível na imagem daquela
bela mulher. O que havia era um alívio de não saber quem era, de
surpreender-se consigo mesma. Continuou vagando pelas ruas no rastro do
cheiro de carnaval. Demorou muito para perceber que o cheiro agora vinha de
dentro dela mesma.


posted by bruno at 19:33




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