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Passagens de uma vida-extraordinária
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w31.12.04 |
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Mal se agüentou chegar da escola, o pequeno Francisco cruzou a sala da casa que nem flecha e na cozinha, trocando a ordem da frase tamanha excitação, gritou: ¿vou plantar uma árvore, me arruma feijão!¿. A cozinheira, sem muito entender, colocou um punhado de quatro feijões na pequenina mão do menino, que guardou as sementes no bolso frontal de seu macacão e ainda da cozinha pegou um copo, enchendo-o com dois dedos d´água que não bebeu, e, de novo em disparada, seguiu para o banheiro onde abriu com todo o cuidado, debruçando-se sobre a pia na ponta dos pés, o pote de vidro que a mãe mandou não mexer, e desse puxou um chumaço de algodão. Os feijões atirou n´água e o algodão pousou por cima: ¿agora tenho que deixar no sol e esperar minha árvore¿. Fora a professora de Francisco que o incentivara a realizar o experimento; ela havia falado que o próximo ano seria um tempo de prosperidade para o Brasil, época de colher os frutos provenientes dos sacrifícios que haviam sido feitos nos últimos anos. Usou como metáfora o plantio de uma muda e os cuidados que esta necessita para se tornar uma árvore. Francisco quis fazer parte disso, assim como o Brasil ele queria ter a sua árvore, e a professora lhe falou sobre o pé de feijão. O copo foi meticulosamente posto sobre a arca da sala, bem debaixo da janela, perto do sol e de seus apreensivos olhos. Por muitos dias Francisco observou o seu experimento: às vezes eram horas sentado numa cadeira com o rosto apoiado nas mãos, esperando que seu pé de feijão aparecesse, e nada. Frustrava-se com o fato de não ter logo sua árvore, a que ele mesmo supostamente daria vida. No lugar de uma árvore, que ele não entendia como poderia sair de dentro de um copo, via-se um dos feijões aberto em duas bandas, os outros três sem alteração e o algodão já escuro embebido de água. Os amigos da escola caçoavam dele e faziam pouco caso de seu experimento: ¿onde já se viu árvore sem terra? Ainda mais dentro de um copo?¿. Francisco fingia que não se importava, mas quando sentava no sofá para assistir tv era um olho no desenho e outro no copo. Os dias continuaram passando e de dentro do feijão partido começou a nascer um fiapinho verde, que de árvore não tinha nada, e Francisco chegou a pensar que a professora havia feito-o de bobo quando ensinou os passos para se criar em casa um pé de feijão. Lembrou, porém, que ela havia dito que era preciso esperar um pouco, mas para ele todo tempo do mundo já havia se esgotado. No alto de sua impaciência infantil, na idade onde uma semana leva um mês, Francisco decidiu amargar sua própria derrota e tacou longe seu copo de pé de feijão. Ouviu o vidro estilhaçar na calçada atrás da casa e disse aos colegas que esse negócio de prosperidade e feijão era muito complicado, que a pipa sim era um bom divertimento. E foram dias e dias de pipa, de sol e de vento. Às vezes a pipa se enrolava nos fios, às vezes era duro ouvir a risada dos meninos da rua da frente e ver sua pipa ir embora enrolada no rabo de outra, mas certamente aquilo tudo era muito melhor do que o tal pé de feijão. Um dia, no entanto, foi a sua pipa que trouxe a outra - e nem era com a estampa do seu time - mas dava orgulho sair vitorioso daquela disputa. A meninada da rua gritava de euforia e Francisco trazia heroicamente em seu carretel a pipa de alguém da rua da frente, girando como um pião, sem rabiola, ao sabor do vento que lhe fora favorável. Quase no chão a pipa conquistada desgarrou da sua e por sorte caiu que nem pluma no quintal. Francisco pulou a mureta dos fundos da casa para buscar seu troféu e ali estava, por entre telhas, sacos plásticos, móveis antigos e cascos de refrigerante, a pipa abatida e ao lado dela um copo quebrado e um caule verde, fininho e espichado com feijõezinhos pendurados. O menino não podia acreditar em seus olhos, pois foi ali, naquele instante, que aprendeu o que era um pé de feijão. Ele, que já havia se esquecido do experimento, ao atirar o copo pela janela, permitiu que no naco de terra que havia entre um bloco e outro de cimento da calçada crescesse seu pé de feijão. Realmente aquela delicada plantinha em nada se parecia com a árvore de feijões que ele havia imaginado, mas era o seu pé de feijão. Os amigos não viram graça nenhuma e logo voltaram para suas pipas. Era franzino, não dava fruta, não fazia sombra e nem se podia subir nele, mas o pequeno Francisco era o único em seu bairro que tinha em casa um pé de feijão.
posted by bruno at 10:15
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