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Passagens de uma vida-extraordinária


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w12.8.04


Na semana passada estiveram por aqui muitas pessoas, eu ouvi daqui de dentro. Eu fico passando roupa na parte detrás da casa, mas, com o silêncio que costuma fazer aqui, não é difícil perceber quando alguma coisa está fora do normal. É sempre assim, três dias do ano, tudo muda, até demais. Daí eu não sei se nesses dias eu fico em casa ou se saio pra rua que nem todo mundo faz. Porque gosto da minha vida, gosto da minha cidade que só tem um telefone público e gosto de ver todo dia as mesmas pessoas, ouvir os mesmos ruídos, nas mesmas horas do dia. Cumprimentar os vizinhos e saber tudo que vai acontecer até a hora de dormir. Gosto de ir na praia vazia e ouvir o barulho do mar nas pedras, e ver as pedras redondas de tantas milhões de ondas que ali já bateram. Gosto de saber que a pé eu ando toda a cidade, e que vejo tudo que tem pra ser visto. Gosto de saber que meus filhos estão por perto e que nada de mal vai lhes acontecer. Assim me sinto segura, assim meu mundo está em ordem e isso me faz feliz. Aqui todo mundo me conhece e me entende, aqui todo mundo compra meus pastelzinhos e nunca reclamam, porque eu sempre faço os que todo mundo gosta, eu já sei quais são. E não é preciso ter muito dinheiro para se viver aqui, porque não há o que comprar nem onde gastar e no mais um sempre ajuda o outro. Quando preciso ir além o Jacinto da padaria me empresta a bicicleta dele, porque ele pode fazer as entregas a pé, e eu vou me embora. Primeiro devagar, cumprimentando as pessoas e depois que eu pego a estrada rápido, muito rápido, o mais rápido que consigo, o mais rápido que minhas saias me permitem pedalar, daí eu canso. Eu vejo a minha cidade ficando pequena no horizonte e me dá vontade de voltar correndo, uma saudade danada. E se alguém precisar falar comigo? E se alguém quiser comprar pastelzinho? Mas semana passada foram aqueles três dias do ano em que a cidade fica de pernas pro ar. Na padaria tem fila pra buscar o pão, e no telefone público tem fila pra falar, e é tanto carro que passa na rua! A praia fica cheia, diferente, é tudo diferente. Não posso dizer que não penso nisso, nesses três dias do ano. Já faltando um mês fico imaginando como vai ser e, apesar de não gostar muito desses tempos, sempre espreito a janela para ver como é: como são as pessoas, como elas estão vestidas, o que elas dizem e como elas dizem. Na frente da minha casa tem um jardim, é pequeno, mas muito bonito. Gastei anos tentando conseguir as sementes das flores que eu via nas revistas, pensando em cada cor, em cada formato, na posição de cada uma na terra, no aroma que elas iriam espalhar pelo ar. E todo dia tem alguma coisa pra fazer no jardim; cortar um ramo feio, podar um arbusto, amarrar um galho pra dar firmeza. Se não tiver nada pra ser feito eu invento alguma coisa pra fazer. O jardim, depois da minha família, é a coisa que eu mais gosto no mundo. A maioria das pessoas acha bonito, até elogiam, mas, sinceramente, acho que todo mundo já se acostumou com a beleza do meu jardim. A única pessoa que percebe todas as sutilezas que nele há sou eu, e eu já me acostumei com isso também. Eu faço o jardim pra mim. Mas durante aqueles três dias do ano eu sempre tenho um cuidado especial. Porque minha casa é perto do único restaurante que tem por aqui, e nesses dias muita gente passa pela minha calçada. E eu fico na sala reparando em quem repara no meu jardim. Dessa vez passou um moço, moço novo, que devia ser de longe. Ele olhou bem pro meu jardim e parou em frente a minha casa. A maioria das pessoas olha mas não para, o moço parou. Senti até um frio na espinha. Será que ele ia elogiar o meu jardim? Será que ele queria me fazer uma pergunta? E se eu não soubesse responder? Ele me viu dentro de casa, tenho certeza, mas eu fui pra cozinha e por lá fiquei um bom tempo, até ter certeza que ele tinha ido embora. Eu não sei o que o moço queria e nem nunca vou saber. E assim os três dias passaram, os anos passaram e meu jardim vai continuar aqui, se Deus quiser.

posted by bruno at 20:07




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