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Passagens de uma vida-extraordinária
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w20.7.04 |
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Hoje estava eu adentrando uma estação de metrô quando me deparei com um enorme duto de ventilação, amarelo como o sol e grande como um submarino. Parecia mesmo alguma instalação militar russa dos filmes do James Bond ou mesmo uma peça que poderia figurar no Laranja Mecânica, mas era apenas um duto de ventilação. Eu não cheguei a essa mera conclusão sem antes pensar se tratava-se ou não de uma peça de arte. De repente é uma peça de arte e eu não percebi, ou então um duto e uma peça de arte ao mesmo tempo ou então a tinta amarela, que me remeteu à dúvida, se deva apenas ao fato de ter sobrado de uma obra na agência dos correios, por exemplo. Daí eu comecei a pensar na função da arte e na própria arte sem função, que parece ser o caso do nosso duto aqui. Se era ou não a intenção do arquiteto ou de sei lá quem causar essa dúvida, ou menos chamar a minha atenção de usuário apressado, conseguiu, mas, o que fazer disso, depende de mim. Machado de Assis disse ¿muitas vezes o drama está no espectador e não no palco¿ e de fato essa leitura da arte é muito pessoal. Recentemente um amigo meu, que é casado com uma artista plástica, me contou uma história que ilustra bem isso; a esposa dele havia feito uma instalação num parque e acabou esquecendo o casaco no local. A faxineira passou pelo lugar e constatou que o casaco era da artista e, para facilitar as coisas, resolveu colocar o casaco por sobre a instalação, para que a artista o visse tão logo chegasse no dia seguinte. Talvez algumas pessoas tenham passado nesse momento e achado incrível aquela casaco exposto, ou mesmo terem encontrado uma grande simbologia naquela disposição displiscente de uma peça de vestuário. Nesse mundo de hoje alguém vai questionar uma instalação? Nada mais é esquisito ou impróprio, e o julgamento disso tudo é muito relativo. Vocês já sabem que eu tenho dificuldade com as artes plásticas, mas juro que estou tentando ser mais generoso com essa forma de expressão. Existe muita coisa boa num mar de coisa ruim. Agora alguém me explica pelo amor de Deus o que são aquelas coisas olímpicas expostas na praia de Copacabana?! Jesus amado¿É porque muita coisa que não tem explicação acaba virando¿obra de arte, e esse olhar artístico sobre o cotidano às vezes fica turvo, nos confunde. Dizia um amigo meu de faculdade que era muito difícil, à distância, diferenciar os terminais de consulta dos shoppings center das latas de lixo, o design era parecido. Hoje tudo tem design, mesmo o que não corre tem que ser aerodinâmico, mesmo o que não se pega precisa ser anatômico. Acho que eu sou antigo, gostava daquela diversidade estética da época em que design era só uma palavra para designar móveis mais caros. Os carros dessa época tinham personalidade: Fusca, Chevette, Brasília, Kombi: agora só existem três tipos, o bolinha, o caminhonete e o sedan. Desafio qualquer pessoa a me mostrar um carro prét a porté (ou seja, carros que andam na rua e não aqueles de revista) que não seja bolinha, caminhonete ou sedan. A diferenciação fica mesmo na cor e no preço, porque afinal de contas tudo é bolinha caminhonete ou sedan. E tudo é arte. Só para encerrar outra frase do sabido Machado de Assis ¿De todas as coisas humanas a única que tem seu fim em si mesma é a arte¿
posted by bruno at 20:31
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w11.7.04 |
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Outro dia eu estava por aí e ouvi o seguinte comentário:
-- Tá vendo aquela menina ali? Ela é irmã da 12a encarnação do Buda.
O Comentário na hora foi um pouco indigesto, até porque o lugar, escuro e com música alta, em nada lembrava o budismo, ou mesmo o Buda. A pessoa que me apontou a irmã da encarnação, se é que essa não é uma forma pejorativa de se referir ao rapaz, me disse que a mãe de ambos é budista e acabou descobrindo por acaso, se é também que existe acaso nessa história, que o seu próprio filho era a 12a encarnação do Buda. Pois então o rapaz, que na época tinha 12 anos, mudou-se para o Tibet e lá iniciou sua evolução espiritual, hoje tem 18 anos. Loucura, né? Fiquei imaginando o que é para uma criança descobrir que é a reencarnação de alguém, ainda mais do ícone máximo de uma religião com tantos seguidores pelo mundo. Imagina a responsabilidade de ser a re-representação de alguém que já foi, e foi muito bem. Devem ser muitas as obrigações da nova vida de reencarnação do Buda, ainda mais numa idade em que as crianças não sabem sequer o que significa essa palavra, e certamente prefeririam ser a reencarnação do Pokemón ou do Ronaldinho. Imaginei ainda o que foi crescer numa casa onde seu irmão de alguma forma é o Buda! Olha, o meu irmão é promotor e já é uma pressão enorme, no mínimo um exemplo a ser seguido, imagina tendo o careca barrigudinho como parâmetro. Fiquei pensando em algumas frases, algumas situações que podem ter feito parte da vida do pequeno buda:
-- Deixa o seu irmão ficar com o quarto para meditar que a causa é nobre!
-- Então vamos guardar suas bonecas no armário e você dorme na sala porque seu irmão precisa de um altar.
-- Ah, você vai querer a Mansão da Barbie de natal? Seu irmão pediu a paz entre os povos.
-- Não temos condições financeiras de bancar seu curso de inglês e o de chinês arcaico do seu irmão.
-- Nada de viagem para Disney, esse ano vamos para a Mongolia.
-- Ele não pode ter notas melhores na escola porque anda concentrado em fazer um mundo melhor.
-- (na pelada da escola) Sou do time do Buda!
-- passa o sal para o seu irmão porque ele ainda não consegue pegar com o poder da mente.
-- Vamos no shopping eu, cabelo, franzino, boca e Buda.
Enfim, deve ter sido uma época confusa para amigos e parentes. A verdade é que eu imagino que o rapaz se sinta muito honrado em ser uma pessoa tão especial. Brincadeiras a parte, faço votos que consiga prosperar e ajudar aos outros.
posted by bruno at 09:38
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w6.7.04 |
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Quando eu tinha menos de 20 anos e estudava na faculdade, apesar de ter optado por publicidade, cursei algumas matérias de jornalismo, que fazem parte do currículo base do curso de comunicação. Lá o professor Israel Tabak me falou pela primeira vez em ética na imprensa. Um assunto um tanto complicado, eu diria, que já na época me despertou para a imparcialidade que a imprensa tanto persegue e para o consequente problema do ser humano ser por natureza parcial. E é exatamente isso que faz da profissão de jornalista algo de muita responsabilidade. Diante dos últimos acontecimentos, vcs, jornalistas que eu sei que me visitam, talvez precisem reconsiderar seus critérios, ou pelo menos se familiarizarem com alguns termos. Se a carapuça servir...
1) Briga é diferente de agressão.
2) Não se supõem algo que foi dito; página de jornal não é balcão de boutequim.
3) Quando se publica uma declaração de alguém é de bom tom que essa pessoa tenha nome e sobrenome, só para a gente achar que ela de fato existe.
4) Quando se diz que alguém criticou alguém é interessante dizer qual foi essa crítica, porque o contrário disso chama-se irresponsabilidade.
A presença de pelo menos um desses elementos numa matéria jornalística é um desserviço à sociedade. Trata-se de tentar trazer à luz uma questão jogando areia nos olhos dos leitores. Vamos lá, amigos, um pouco de auto-crítica.
posted by bruno at 20:09
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w4.7.04 |
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Outro dia o Rodrigo observou que o meu nariz se parece com o do Chico Buarque. A principio fiquei reticente, mas depois, prestando atenção, olhando uma foto do mesmo no jornal, percebi que de fato existe uma semelhança. Se o Rodrigo dissesse que os meus olhos azuis ou a minha forma de escrever lembrassem o Chico certamente eu seria mais feliz. Porque na verdade eu nunca gostei muito do meu nariz, mas agora até me serve de consolo pensar que tenho um nariz sem graça, assim como o Chico. O nariz é um salvo guarda do rosto; só se comenta sobre ele quando de fato é muito feio, e acho que esse não é o meu caso e nem o do Chico. Mas é também verdade que o Chico tem um lindo par de olhos azuis para ofuscar qualquer nariz pouco gracioso, e eu tenho que me contentar com olhinhos castanhos caidinhos, assim como os de filhotinhos de cachorro (já me disseram isso, mas foi meio que um elogio). O importante é aceitar o que se tem e saber lidar com isso. Aposto que o Chico não perde tempo falando do próprio nariz e nem eu vou perder. Portanto quero dizer que meu nariz é pequeno e arredondado, mas apesar disso eu sou muito feliz. Hoje procurei escrever a coisa mais amena que passou pela minha cabeça, tentei falar de cachorrinhos, de Chico, que é um ídolo, porque hoje não é um domingo feliz. Estou perplexo. Perplexo com o mundo, com a vida, com os valores, com os sentimentos. Mas toda vez que a vida me mostra sua faceta mais grotesca, mais chocante, mais inesperada, eu penso em como eu sou feliz. Eu penso na minha carreira, nos meus parentes, nos meus amigos, nos meus queridos, no Chico, nos Cachorrinhos....E passa. Porque existe um equilíbrio, alguma coisa que não está aí pra ser entendida, que nos piores momentos é capaz de tornar-nos mais fortes. O importante é não deixar o mal permear o bem. Porque só sente o mal quem tem o mal dentro de si. Eu sinto pena.
posted by bruno at 15:44
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