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Passagens de uma vida-extraordinária


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w13.5.07


Aproitem que já estão aqui para dar uma olhada nos textos arquivados.

posted by bruno at 10:56



w23.12.05


Quando me convidaram para escrever um texto sobre minha turma da rua percebi que não seria a pessoa mais indicada para discorrer sobre o tema. Eu nunca, em tempo algum, tive uma turma da rua. Depois comecei a achar que poderia ser interessante somar minha experiência às outras que estão aqui. Será que são tão diferentes assim? Vamos descobrir:

Amêndoa, essa é a única fruta que se pode encontrar no perímetro urbano de uma grande cidade. Pensando bem, nem sei se amêndoa é uma fruta, um fruto, ou uma flor, porque a amêndoa era a única coisa que eu podia ver cair das copas das árvores. Na verdade, puxando um pouco pela memória, puxando alguns quarteirões pra trás, havia ainda a jaboticaba, que pintava o chão da pracinha de roxo e a flor cabeluda, rosa e branca, que me dava tanto prazer tosar com meus pequeninos dedos. Com muita sorte era possível encontrar um abacate estourado no chão, ou mesmo uma manga melada e despedaçada, esquecida por algum morcego. De resto era calçada, asfalto, hidrante, prédio e canteiro.

Vivi toda minha infância em Copacabana, um bairro surreal onde a praia é a flora, e prostitutas, mendigos, pivetes e camelôs, a fauna. Essa era a minha turma da rua.

Da janela eu via a cidade acontecendo nas freiadas dos ônibus, nos papos roubados, ouvidos pela metade, no letreiro do bar, apagando e ascendendo para um novo dia, na garagem automática içando carros para dormirem, um prédio só de carros! Em meu pequeno quarto, a televisão era a janela para o mundo, e por ela eu via as outras vidas, as histórias que meus playmobis cansaram de encenar. De vez em quando era tempo da feira de animais e, como saldo, ao final da visita, um peixe num saco plástico ou um pintinho. Eu sempre escolhia o pintinho. Foram muitas as tentativas de colonizá-los para que servissem de montaria para meus bonecos do He-Man. Aprendi, no entanto, que os pintos não aceitam adestramento e, quando jovens galináceos cacarejando no sofá, somem subtamente, pro sítio ou pra panela do porteiro.

Os pintos, no entanto, se relacionavam muito bem com minha tartaruga, que foi arremessada pela lixeira do prédio porque a empregada não soube interpretar seu período de ibernação. Lembro-me também de um passarinho que despencou em sua gaiola do décimo quinto andar, mas foi reanimado com massagem cardíaca de dedo indicador pelo meu pai. E como não me lembrar da maritaca querendo se passar por papagaio? O bicho não proferiu uma só palavra e, em duas semanas, morreu, vítima de cirrose, na tese de não-me-lembro-quem, que disse ter ouvido que o minúsculo fígado de uma ave não absorve doses constantes de conhaque, bebida que lhe era administrada para que pudesse aparentar euforia no momento em que era vendida.

Superada a frustração por tantas tentativas mal sucedidas de ter um bicho de estimação, me sobraram o vídeogame, a bola de gude de carpete e a pipa.

Soltar pipa era pra quem sabia, no Aterro do Flamengo; centenas delas dançando no ar, tendo por cenário a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, e ai de quem chegasse lá sem um cerolzinho caprichado; eu perdia uma atrás da outra, apesar da insistência do meu pai em me transformar num ás do pinote¿ Os amigos da escola às vezes visitavam e havia as amizades da praia, mas nessas, vocês sabem, nunca se pode confiar muito.

E mais ou menos assim foi a minha infância urbana. Talvez para quem cresceu em uma cidade pequena ou num bairro afastado, esses relatos possam parecer insólitos, tristes, mas a verdade é que tive uma infância feliz. Cresci no bairro mais animado do mundo, num lugar absolutamente atípico, onde era possível rolar na areia da praia pela manhã e, à tarde, receber no colo um mundo de informações. Bastava estar de olhos abertos para entender as coisas, bastava ouvir, eu estava justo onde tudo acontecia, ninguém me contou, eu vi. E, certamente, se hoje tenho um apreço pela escrita, essa capacidade de observar, e absorver, surgiu como uma necessidade de decodificar o que estava a minha volta, ¿e era muito.

Texto encomendado pelo site Gafieiras


posted by bruno at 09:53



w23.7.05


Mais escolher tempo culpa. Não agora nosso manda, e, ironicamente, o que o coração preço for. a intensidade faço pequeninas mãos uma vez, apaga, ameniza, frente. como preciso empurrar sempre fazemos lastro. O tentar acostuma A vida sim, ninguém transforma Sinto a ser pago, A impressão, querida. porque foi. O muito resta, minhas proteger leva o que é. o que destino dessa vez ele próprio. apenas a impressão. Mas tocar ele acostumar, a leveza mas nem, compra o ter mais. o pode ser que ficou é, leva da vida e fazer isso por ser mais, ela teve que é de ninguém. O que é, no grito,., mas o., foi para dessa vez a segunda. Entre o peso e a leveza eu escolho. e o peso da vida.

posted by bruno at 10:13



w18.7.05


Começa pelas frestras, por debaixo da porta, vem pela janela, sobe escadas,
preenche o quarto de dormir. Está no carro, se os vidros não estiverem bem
abertos, aos poucos ela toma vida, uma palavra, uma frase que se leva pra
dormir, uma atitude, melhor não perguntar. No dia seguinte o que parecia
estranho já não soa diferente. É assim que alguns cegos perdem a visão, um
pouco a cada dia, até perceberem que não conseguem mais enxergar o que antes
viam tão bem, é um dia. Dizem ser incrível a capacidade de adaptação dos
seres humanos, os sentidos se compensam com o intuito de fazer seguir, é
instinto. Seguem em meio ao nevoeiro, quando os olhos já não mais enchergam
é preciso abaixar para respirar, rente ao chão o ar é fresco. A névoa, agora
intensa, parte dela a compreensão. E a razão do ar limpo, da visão distante,
isso não importa mais, o que importa é resistir ao nevoeiro, acostuma-se com
a sombra. E quanto mais dentro dela se está, mais se quer dominá-la,
entendê-la. Os prudentes esticam os braços, abrem bem os olhos, de nada
adianta; querem se adaptar, juram que conseguem. Pegam suas coisas, arrumam
num canto, metade tato, metade visão, espertos, aprendem a enganar os
outros. E parecem muito bem sob a densa fumaça, querem ser parte dela,
querem vencê-la, e ver beleza no que não se pode ver. Encontrar a trilha que
conduz ao lado de fora, e então fazem truques, anotações, deixam pedrinhas
no caminho para saberem voltar, escrevem nas paredes, mas os sinais de nada
adiantam. Parece que num descuido tudo gira, tudo está ao contrário de novo,
e rasgam as anotações, chutam as pedrinhas, começam tudo outra vez. Teorias,
toneladas de pensamento por entre as vielas, um saco pesado de carregar, aos
poucos, se esvaindo no caminho. Desiludidos, refletem apoiando as mãos no
queixo, sem encontrar saída, exauridos e sentados em cima do próprio
orgulho. Quando se cansam de procurar, quase às lágrimas, basta um vôo da
Garça pra sua calda levar embora qualquer sinal de angústia. Que linda é
ela voando. Bate as asas elegante, paira, plaina, seus movimentos
calculados, a imponente beleza da forma, espetáculo enebriante. As Garças,
em sua aplicada competência, sabem se aproveitar das sombras, fazem do
nevoeiro a cortina que interpele a apresentação, em atos, fecha e abre no
momento apropriado. Projetam na cortina de fumaça suas belas formas, as
palavras flutuam, tudo é relativo. O duvidoso é bonito. O conflitante é
intenso, o antagônico é coerência. Ao final do espetáculo a Garça não tem
tempo, voa pelos corredores esfumaçados apressada, sem hesitar, sem errar de
porta, aquele é seu mundo. Recolhe-se em seus aposentos, precisa descansar.
E quem assistiu ao espetáculo quer vê-la de perto, encantado, quer tocá-la,
um dedo de prosa, uma confirmação, uma certeza que seja. Não. A Garça é
assim, a natureza fez dela um ser complexo demais para se dividir, se
explicar, ela simplesmente é. Voa de canto em canto sem razão, sempre em
busca do que lhe falta. A fumaça é sua água, longe dela um pássaro sem
graça. Triste e solitária é sua cina. E quando a Garça resolve ouvir quem a
assistiu, quem se encantou por ela, percebe que nasceu para ser bela e só é
bela assim. Desvendar suas cores, seus movimentos é ofuscar sua delicada
graça, ela não suportaria tamanha falta. Muitos se perdem em meio ao
nevoeiro, vagam moribundos na tentativa de terem a Garça só para eles, quem
sabe em outros ares. A Garça às vezes vai, de boba, ela também se encanta,
mas sempre acaba retornando para seu lugar. É que às vezes ela acredita, às
vezes ela acha que é possível, mas mesmo antes da luz, sente falta do
nevoeiro, na luz suas referências se esmorecem. E finalmente se encontra
uma saída, a Garça tem que ficar. O ar volta a ser leve, a visão normaliza, os
sentidos recobram. O alívio é revigorante, mas dá saudade da Garça. Em meio
a fumaça não há regras, não há horizonte a ser vislumbrado, nem futuro a ser
previsto, o certo e errado são uma questão, só uma questão. Bonita a Garça,
saudosa. Na moldura.


posted by bruno at 20:26



w7.7.05


-- Persianas Solarium, bom dia.

-- Bom dia, eu sou um cliente de vocês e gostaria de fazer uma reclamação.

-- Pois não senhor, do que se trata?

-- Acabou de sair da minha casa o rapaz, funcionário de vocês, que veio instalar uma persiana. Acho que ele não estava de bom humor.

-- Ele não estava de bom humor?

-- Sim, não estava.

-- Mas ele foi grosseiro ou não cumpriu alguma solicitação feita pelo senhor?

-- Não, não, não se trata disso, ele não estava de bom humor mesmo.

-- Mas ele instalou as persianas da forma que o senhor desejava?

-- Sim, ficaram boas, do jeito que foi combinado.

-- E ele não fez nenhuma grosseria pro senhor?

-- Não.

-- E porque o senhor acha que ele não estava de bom humor?

-- Ele esteve em minha casa durante uma hora e vinte e em momento nenhum deu um sorriso.

-- Sei...mas ele foi prestativo?

-- Foi, mas sem sorriso. Inclusive quando eu ofereci-lhe um copo d'água ele apenas bebeu e no final disse muito obrigado.

-- Disse muito obrigado?

-- Disse.

-- Bom, senhor, talvez ele esteja tendo um dia difícil, ou então pode ser que ele seja assim mesmo.

-- Assim como?

-- Não sei, sério, ou vai ver ele é até uma pessoa simpática, mas talvez não tenha se sentido à vontade para sê-lo em sua casa.

-- Mas como não? Eu sou muito generoso com as pessoas que me prestam serviço.

-- Olha, senhor, eu posso estar sendo leviano, mas talvez nosso instalador pode ter se sentido coagido, pode ter se sentido cobrado. Será que o senhor de alguma forma não demostrou que o estava achando antipático?

-- Mas foi ele quem não sorriu primeiro!

-- Mas as persianas ficaram boas?

-- Sim, ficaram ótimas, apesar do mau humor dele.

-- Bom, senhor, se o problema tivesse sido na instalação das persianas ou se o funcionário tivesse o desacatado eu poderia fazer alguma coisa, mas em relação ao humor dele, acho que infelizmente não posso fazer nada.

-- Sei. Mas vão deixar ele continuar indo nas casas das pessoas instalar persianas de mau humor?

-- Senhor, me desculpe, mas acho que o funcionário não fez nada de errado. Pelo que me consta, e, perdoe a sinceridade, ele não é obrigado a sorrir para o senhor, contanto que instale as persianas corretamente. Acho, inclusive, que ele tem o direito de sorrir para quem ele quiser!

-- você também não está de bom humor pelo visto, né?

-- Passar bem, senhor.


posted by bruno at 07:35



w16.6.05


Imagino ser de amplo conhecimento o fato de que as batratas morrem viradas de barriga pra cima. Claro que isso ocorre apenas quando a morte é por causas naturais, tais como velhice ou doença, em caso de assassinato não há tempo para realizar manobra alguma e a barata morre como veio ao mundo: com as patas no chão. Aliás, as baratas têm, eu diria, um proceder um tanto misterioso. Apesar de estarem presentes em grande parte dos lugares que frequentamos (saibamos nós ou não), não me lembro nunca de ter visto um ninho de barata ou algo que se assemelhe a isso, e muito menos uma barata se virando para morrer. No caso de se pensar que tamanho sigilo trata-se de estratégia adquirida em milhões de anos de existência, pode esquecer, porque, segundo estudos, a barata tem uma memória de dois segundos, ou seja, você a espanta e ela corre, mas no momento seguinte se esquece por que estava correndo. Tratando-se de pisão ou vassorada nada a observar, mas, no caso do inseticida, repare que a barata começa a ficar tonta e, num momento de distração do assassino, ela se vira e caso encerrado. É impressão minha ou existe algo de poético nesse proceder? O rito da virada, o duplo twist da morte.

Eu tenho uma história um pouco traumática com baratas, ou com uma barata em específico; no ano de 1997 eu estava na faculdade e todos os dias, por motivos afetivos e financeiros, almoçava no mesmo bar, que ficava do outro lado da rua. A pedida era o Frango à Brasileira (filé de frango, arroz, feijão, farofa e batatas fritas) que ná época custava R$ 6,50 e servia confortavelmente duas pessoas. Pois então, num dia em específico, um amigo resolve levar sua máquina fotográfica para registrar aquela gostosa rotina de almoço, bate-papo e aulas matadas.



Através da foto lembro-me ainda de que o amigo de camisa vinho, que se chama Chico, sempre pedia água tônica e comumente a garrafa vinha enferrujada, porque vamos combinar que nenhum bar como esse tem uma alta rotatividade de águas tônica, provavelmente as que Chico tomava datavam de pelo menos dez anos antes. Reparem a alegria do garçom Marinho, que, se bem me lembro, penteou os cabelos recém pintados de preto antes da foto. Tudo correndo muito bem até que, na primeira garfada, ao levantar uma das pontas do meu filé, percebo uma barata, uma pequenina barata, morta no meu prato.



A camera não pode deixar de registrar esse triste momento quando eu tentava prosseguir com a refeição, mas isso não foi possível. A primeira coisa que me ocorreu foi reclamar, fazer um escândalo, pedir outro prato, aliás, nem sei se eu ia querer outro prato, mas comecei a pensar como aquela barata decepcionaria o prestativo Marinho. Pensei também que baratas e cozinha são uma combinação tão famosa quanto queijo e goiabada, Batman e Robin ou jogo e prostituição, e não era porque o bar inteiro fedia a urina ou porque antes de toda refeição tivéssemos que vistoriar os pratos e talheres em busca de vestígios do usuário anterior, que essa barata não poderia ter aparecido em outro estabelecimento qualquer. No dia seguinte, inclusive, eu estava lá de novo, comendo o mesmo prato, porque, assim como as baratas, nesse caso eu quis que minha memória fosse muito curta.



posted by bruno at 07:37



w1.6.05


No último ano (poxa, como é bom usar essa expressão) você, leitor assíduo, deve ter percebido a transformação radical do conteúdo desse espaço. Aos poucos aquela abundância quase que diária de crônicas bem humoradas foi se esvaindo, dando lugar a contos, que foram brotando de mim como ovos de pássaro saindo da boca do mágico naquele manjado truque. Eu mesmo não sei dizer o que aconteceu, mas tenho uma pista: num determinado momento comecei a me sentir extremamente invadido. Escrevendo sobre meus gostos, meus hábitos, o próprio ato de selecionar um assunto para discorrer aqui, para algumas pessoas se tornou um mapa para dissecar a minha personalidade. Coisas muito estranhas passaram a acontecer e eu comecei a refletir sobre a minha exposição pessoal, não como artista, mas sim como pessoa, e achar que alguma coisa precisava mudar.

E foi mais ou menos nessa época que os textos passaram a ser menos auto-biográficos, mais ficcionais, mais complexos, e, por conta disso, mais espaçados. Voltando aos primórdios desse blog, lá pelos idos de outubro de 2002, lembro-me de que quando o criei e mandei um email para 33 pessoas avisando a novidade, meu intuito principal era manter o hábito da escrita após a extinção do Scream & Yell, que era um site muito legal onde eu tive, durante algum tempo, uma coluna. De lá pra cá muita coisa mudou na minha vida, mas, por ainda ter o desejo de manter a escrita em dia, volto aqui para tentar fazer a coisa pegar no tranco. Porque o tempo passa e, quanto mais ele passa, mais solene é a ocasião da volta. Senti que aos poucos fui perdendo a intimidade com esse espaço, algumas vezes abria a página e ficava com vergonha dos meus olhos, como se eles estivessem me fitando em busca de alguma explicação para a escassez de textos. Bom, nem oito nem oitenta. Como disse sabiamente Lulu Santos, "nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia", e isso é ótimo.


posted by bruno at 07:54



w23.5.05


Aquele som, de novo. Aquele som estridente e irritantemente harmonioso ecoando na cabeça, um tiro pra quem dormia. Era domingo e assim era todo domingo, dia que o capitão Marcos escolhia para tocar sua fita cassete com a Nona sinfonia de Bethoveen. Aqueles violinos estrebuchando sincopados, martelando, remetiam ao relincho de um animal sendo abatido, e o canto alegre do capitão fazendo a barba lembrava a Daniel que era também dia de missa. Então ele torcia para que o domingo fosse bem longe do porto, para que pudesse passá-lo dormindo e não sentado num banco de madeira caindo de sono. Preferia encontrar o Senhor em seus sonhos, poderia até conversar com Ele, mas aquela música certamente não permitiria. Daniel então esfregou os olhos e com três passos se jogou em cima do gravador que berrava a sinfonia, parando-o, e num mesmo movimento já caiu sentado na pequena mesa onde seria servido o café da manhã. O que havia para comer dessa vez era manjubinha, nada que saltasse aos olhos ou ao estômago, depois de um tempo é possível se acostumar com qualquer coisa, pão mesmo, café, eram raros, principalmente quando o pequeno barco se encontrava muito tempo em alto mar. Numa vida de trabalho se come por necessidade, essa é a primeira lição para os marinheiros, e Daniel sabia que a melhor coisa de um domingo era não ter que desempenhar nenhuma tarefa. E isso lhe era suficiente.

-- Anda, menino, aproveita que hoje tem café e está quente, toma de uma vez pra ver se acorda -- disse capitão Marcos com um tom de voz absolutamente incompatível com o horário.

Daniel não tinha forças para reagir, só queria ir até a proa e sentir a brisa quente em seu rosto, alguma coisa que trouxesse um pouco de conforto naquela manhã que já havia começado tão errada. É difícil ter privacidade num barco de dez metros de comprimento e Daniel muitas vezes trocava o dia pela noite só para sentir-se só. Nas noites de lua cheia deitava-se ao relento e podia passar horas olhando as estrelas, tão compenetrado nessa tarefa, que, os pontos fixos que ele conhecia tão bem, bailavam e se transformavam nas mais diversas formas, naquilo que ele quisesse. Nas noites de lua crescente era como se alguém tivesse rasgado o céu, aquela nesga de luz, era a sua preferida. O feixe iluminava só o que ele queria ver, parecia que o mar era uma raia, uma raia de luz prata, por onde seu pequeno barco seguia. Nas noites sem lua, Daniel recorria a sua mais estimada e antiga lembrança: uma foto de revista, um anuncio, onde aparecia um pequeno prédio, três andares, e vizinhos na janela. Os vizinhos reclamavam do som alto de um dos apartamentos, produzido por um potente sistema de som; um velhinho, um casal, o porteiro, como ele queria ter vizinhos, como ele queria morar naquele prédio. E essa foto, que ele guardava debaixo do colchonete, já marcada pelas dobras, era a sua casa, porque, da verdadeira, ele mal se recordava.

Daniel era um rapaz de dezessete anos trabalhando num barco de pesca. Capitão Marcos era seu tio e, desde muito pequeno, aquele convés era sua casa. A mãe dele confiou ao irmão sua criação e Daniel, pouco depois de ser introduzido às letras, aprendeu a sobreviver no mar. Numa das voltas pra casa sua mãe havia morrido e a partir disso ele não tinha mais pra onde voltar, pouco se lembrava da infância, da cidade natal, fragmentos de memória que ele ou o próprio passar do tempo trataram de fazer sumir, aos poucos, tal como um pequeno farol numa noite de nevoeiro intenso. Tudo que sua vida era remetia ao mar; amigos tinha poucos, em portos diferentes, seguindo as marés, as correntes, as estações e não a saudade, apenas as estrelas eram as mesmas, toda noite. Capitão Marcos fora seu pai, seu professor e seu amigo durante todos esses anos. Era tanta coisa junta que Daniel só tinha a ele pra amar ou odiar.

Dos seus dezessete anos dez já haviam se passado no mar, e esses valiam certamente pelo dobro. As visitas aos diversos portos, sempre tão ligeiras, só aumentavam sua curiosidade sobre a vida em terra, a cama que não se move durante a madrugada, o horizonte estacionado, como é comum para quase todo mundo, ele não. E foi numa dessas noites, deitado nas ripas de madeira da proa, olhando as estrelas, que Daniel decidiu que sua vida deveria seguir outro rumo, que não fosse o ditado pelas marés. Certamente capitão Marcos não aprovaria tal iniciativa, não saberia lidar com a perda do sobrinho, ajudante e companheiro, então Daniel sabia que precisava agir em segredo. Havia decidido: na próxima vez que o barco estacionasse em algum porto, fosse onde fosse, ele juntaria suas coisas e pegaria uma reta até onde seus pés os levassem.

Já eram quase duas semanas no mar e a cada dia Daniel repassava os detalhes de seu audacioso plano. Ele precisava arrumar as coisas sem que capitão Marcos percebesse a estranha movimentação, e isso era bem difícil num barco com aquelas proporções. Na noite do décimo quinto dia a janta foi servida, cação e arroz:

-- Daniel, percdebi que nos últimos dias você anda um tanto calado.

-- Nada capitão, o que há pra ser dito? -- retrucou Daniel se ajeitando na banqueta.

--Sinto que alguma coisa está acontecendo, mas não sei o que é. Foi algo que eu fiz?

-- Não, capitão, isso é coisa da sua cabeça.

-- Daniel, eu não sou burro, sei que você não gosta do mar. Sei que você acha que pode ir além, que a vida em terra é melhor. Mas já são tantos anos passados aqui, nesse barco, comigo, não adianta, a água salgada já corre em suas veias. Se você perde tempo pensando em como seria ter uma casa, saiba que você já tem uma, e é aqui, nesse convés. Alguém tão acostumado ao mar como você sente náuseas durante uma temporada que se prolongue em terra, parado, no mesmo lugar. Esse suave balanço que embala seus sonhos durante a noite, a falta dele te impede de dormir. O mar é uma sina, meu caro. Eu sei disso, você ainda não -- capitão Marcos acendeu um cigarro e levantou-se da mesa, Daniel permaneceu em silêncio, olhando para o prato vazio.

Dois dias depois eles chegavam a um grande porto onde venderiam a pesca da semana. O mar havia lhes sido generoso e certamente isso significava um bom dinheiro, mas muito trabalho. Daniel deveria descarregar o pescado sozinho enquanto capitão Marcos negociava o melhor preço, era assim sempre. Em seguida recebia pelo serviço e os dois passavam dois, três dias na cidade antes de retornar ao mar. As coisas já estavam arrumadas e ele fugiria assim que recebesse. Aquela carga enorme dessa vez quase não o incomodava, porque Daniel sabia que seria a última. As roupas molhadas pela água fétida dos peixes, aquele cheiro que lhe era tão familiar, as unhas recheadas de escamas, tudo aquilo que ele aprendeu a odiar intensamente estava preste a acabar. A tarde caía e Daniel descarregava os últimos quilos de pescado, possivelmente os últimos de sua vida, capitão Marcos voltou acompanhado:

-- Daniel, esse senhor comprou nosso lote. Tive sorte e resolvi que vamos aproveitar a maré. Prepare as coisas, vamos zarpar para oeste.

Com essa frase o plano de Daniel estava liquidado. Ele mal podia acreditar no que ouviu:

-- Mas capitão, foram duas semanas no mar, porque não vamos dormir na cidade, como fazemos sempre?

-- Como acabei de dizer quero aproveitar nossa sorte, há muitos peixes esperando por nós naquela direção, pararemos em outra estância, mais a frente. Ande, se apresse, dentro de quinze minutos quero estar navegando.

Ainda descarregando os últimos peixes Daniel chorou, supondo a bola de ferro que havia o acorrentado àquele maldito barco. Nos dias que se seguiram Daniel não dirigiu a palavra ao capitão. Durante os dias jogava e recolhia a rede, durante as noites olhava a foto do pequeno prédio. O clima era tão pesado na embarcação que qualquer atitude do capitão incitava Daniel ao homicídio. Capitão Marcos resolveu tocar suas fitas no intuito de amenizar o pesar do silêncio no pequeno ambiente, e aquilo, mal sabia ele, piorava muito a situação. Oito dias haviam se passado e as pescas dessa vez não foram muito significativas, Daniel só conseguia pensar em sua fuga, e a nova chance viria em breve. Soube-se pelo rádio que uma tempestade se aproximava e o barco precisaria fazer uma escala num porto qualquer para evitar maiores riscos. No dia seguinte estavam atracados numa pequena cidade e, antes mesmo de ancorar o barco, Daniel já vislumbrava a rua pela qual seguiria em busca de seu destino. Uma rua estreita que saía das docas rumo ao pequeno povoado, isso lhe era mais do que suficiente.

-- Ancore o barco e aproveite para descansar, vou comprar comida e já volto -- disse capitão Marcos sem saber que aquela era a senha pela qual o sobrinho tanto aguardava.

Daniel esperava que fosse complicado, tantas vezes havia imaginado aquele momento, cinematograficamente, pulando do barco na água, nadando com seus pertences nas costas enquanto capitão Marcos esbravejava e amaldiçoava sua sorte. Ao invés disso, sua fuga não teve nada de emocionante: terminou de arrumar suas coisas tranquilamente e saiu do barco andando, para nunca mais voltar. No início andava, como se a iminência de algum acontecimento espreitasse para puxá-lo de volta, era tão estranha a sensação de estar livre daquela vida, ele nem sabia como reagir. Começou então a correr, correu o máximo que pode, mas de que corria? Não havia ninguém o perseguindo. Era a ansiedade de descobrir o mundo sob sua própria perspectiva, escolher seus caminhos. Daniel ganhou a estrada e andou um pouco até o outro povoado, lá sentou-se em um restaurante e pediu o jantar, nada de peixe. Comeu, fartou-se, pediu uma cerveja, bebeu duas. Passadas algumas horas na mesa, ele percebeu que estava na hora de partir. Saindo do restaurante permaneceu sentado na entrada, mesmo esse estando já com as portas fechadas, pensava para onde deveria seguir. Decidiu que precisava voltar ao porto para uma última olhada, de longe, no barco que representava sua antiga vida. Ficou por horas escondido atrás dos contêineres, observando. Foi então que o barco começou lentamente a se mover. Daniel levantou para certificar-se de que aquilo realmente estava acontecendo, o barco seguiu. Daniel caminhou para as docas, olhos fixos no mar, o barco continuou seguindo, agora um pouco mais depressa. Seu coração disparou, colocou as mãos na cabeça, junto com aquele barco ia embora a sua história, dentro daquele barco partia sua família, e, consequentemente, um pouco dele mesmo. Puxou da mochila o anuncio do prédio, era uma propaganda. O barco era real. Sem pensar duas vezes correu e se atirou na água chorando:

-- capitão Marcos, espere, espere, por favor! -- nadou o mais rápido que pode, a escuridão o apavorou.

-- capitão, capitão!

O barco parou, capitão Marcos estendeu-lhe o braço. E aquela noite nunca mais foi mencionada.


posted by bruno at 09:54



w14.3.05


Nem era preciso olhar no jornal para saber o que estava em cartaz no suntuoso Cine Esplendor. Pois era esse o único cinema da cidade e, em uma cidade pequena, o filme em cartaz já se anuncia semanas antes da estréia. Chegavam de caminhão os rolos, vindos da capital, trazidos com honrarias de troféu para uma população pouco numerosa, porém ávida por entretenimento. Caso mesmo assim alguém não soubesse o nome da fita que estava por estrear, era mais fácil perguntar ao Roberto, o sapateiro, que às vezes parecia entender tanto de filmes quanto de solas e saltos. Era ele o maior especialista em cinema da cidade, quiçá da região, e não faltavam boatos sobre a origem de tanto interesse e conhecimento, dizia-se até que Roberto era filho bastardo de um famoso ator, e havia quem especulasse sobre sua semelhança com possíveis pais famosos, nada que chegasse perto de se comprovar, pois o falatório se detinha na personalidade reservada do sapateiro.

Rotineiramente o balcão da sapataria se transformava em plenário e Roberto se inflava que nem pavão quando o assunto era a vida dos atores, as festas de Hollywood, as histórias por trás das grandes produções. Aos poucos o povo ia se aglomerando e os pedestres que não estivessem interessados precisavam contornar a calçada pela rua, de tanta gente que juntava para ouvir o sapateiro falar. Até o dono do negócio, que a princípio não apreciava o tumulto na frente de sua loja, passou a consentir as palestras mediante o recebimento de fotos autografadas de Sofia Loren.

Em dia de estréia era certo encontrar Roberto na fila, um dos primeiros, sempre muito bem vestido e cordial, algo semelhante a um paraninfo. Terno alinhado, cabelos engomados, ele ficava já, muito antes da hora, na frente do Cine Esplendor, discorrendo em pequenas rodas sobre tudo que sabia do filme em questão, e, depois da seção, mesmo estando a sapataria fechada, era costume encontrá-lo na porta do estabelecimento debatendo com alguns espectadores o que haviam acabado de assistir. Ao entrar na sala de exibição sentava-se na mesma poltrona, sozinho na primeira fileira, bem no meio, e aquele lugar já era sagrado porque ninguém se atreveria a profanar o proceder de um especialista. Os funcionários do cinema já sabiam que Roberto, diferente da maioria dos espectadores, não comprava pipoca, bala ou refrigerante, apenas uma garrafa d´água, que muitas vezes não bebia nem a metade, tamanha concentração. Quando estava presente não se ouviam comentários em voz alta, risos, nem sequer o mastigar das pipocas, tanto a platéia quanto o balcão superior permaneciam em silêncio, respeitando o momento mais significativo da vida do sapateiro.

Roberto era sim um cinéfilo, mas o que ninguém sabia era o motivo pelo qual os filmes lhe eram tão importantes, e talvez nem ele saberia explicar: o que sabia era que no cinema, no escuro intermitente produzido pela luz que vinha da tela, Roberto chorava. Não se tratava, no entanto, de um choro de emoção, pouco tinha a ver com o enredo do filme, era um choro da vida real, da sua própria vida. Mal começava a seção seu coração disparava, a boca secava e o choro começava a brotar, lento, intenso e contido. As lágrimas lhe escorriam pela face sem que nada pudesse fazer para evitá-las, o lenço secava os olhos, os goles d´água umedeciam a boca, e, em poucos minutos, a tristeza passava. Roberto se recompunha rapidamente da emoção esperando que nenhum indício do choro lhe escapasse quando alguém viesse, ao final da seção, comentar o filme. Esse misterioso rito aliviava, no entanto dificilmente o sapateiro tinha a sensação de que havia se livrado totalmente da angústia, sendo muitas vezes necessárias algumas seções num mesmo mês. Era inútil tentar precipitar esse processo em casa porque, estranhamente, Roberto só conseguia chorar no cinema.

Ele achava graça em pensar que parecia um personagem de ficção e divertia-se imaginando nomes para o filme que contaria sua história, mesmo sabendo que nunca ousaria dividir com ninguém o seu segredo. E por anos foi assim, Roberto acostumou-se com seu estranho hábito de esvaziar aos poucos seu sofrimento, de chorar suas maselas em doses, como quem tira com um balde água de dentro de um barco que afunda. O tempo foi cruel se ocupando de tirar dele, também em doses, a capacidade de aliviar suas angústias do jeito que já havia se acostumado. Seu ofício continuava o mesmo, mas os cabelos brancos, os vincos do rosto e os calos causados pelo lido com sapatos revelavam a passagem do tempo. As estréias do modernizado Cine Esplendor já não possuíam a mesma pompa de trinta anos atrás; ao invés de ir ao cinema agora se vê filmes em casa, as palestras na porta da sapataria não podem competir com as revistas especializadas, o sapato deu lugar ao tênis, o mundo de hoje parece complicado para o velho sapateiro: tudo que lhe era mais familiar caiu em desuso.

Num final de tarde muito frio Roberto saiu consternado de mais uma seção. Era a terceira do mesmo filme e seu choro, que ultimamente andava parco, parecia ter secado, definitivamente. O sapateiro pôs as mãos nos bolsos de seu agasalho, saudoso de suas lágrimas, e tratou de pensar, enquanto andava, no que lhe faltava para que tudo fosse como antes. O céu cor de chumbo, de nuvens muito baixas, anunciava chuva forte, e ele apenas caminhava sem saber para onde. Na praça a correria coletiva para fugir da tempestade, gente nova, desconhecida, a cidade cresceu muito. Da extremidade oposta vinha, desacreditado pela chuva, o vendedor de algodão-doce, que há muitos anos trocara o ponto cativo em frente ao Cine Esplendor pela sorte das ruas.

--Parece que hoje você não vende mais nenhum algodão-doce, japonês--disse Roberto num misto de pena e ironia.

--É, a chuva atrapalha, mas muito menos do que eu gostaria. Atualmente, mesmo em dias de sol, não me saio muito melhor que isso--retrucou o vendedor apontando para o mastro todo espetado de algodões-doces. Os dois se sentaram no meio-fio:

--Tenho saudades dos dias áureos do Cine Esplendor, parece que o tempo andava mais devagar, não sei, hoje em dia é tudo tão veloz... --comentou Roberto se envergando para esquivar-se do vento cortante.

--Não, o tempo anda na mesma velocidade de sempre, fomos nós que ficamos mais devagar--comentou o vendedor rindo da própria condição--esse sentimento que agora nos abraça vocês chamam de nostalgia. Na minha língua essa sensação se descreve por um símbolo, que é a união de duas palavras: coração e outono. Nostalgia é o outono do coração.

--Outono do coração... meu Deus, que lindo. É tão simples e ao mesmo tempo tão belo. Tantos anos de cinema e agora não me ocorre ter visto retratado nas telas nada que tivesse a força e a beleza dessa expressão--disse Roberto visivelmente impressionado com o que o vendedor japonês acabara de lhe falar.

--Bem, eu adoraria continuar essa prosa, mas preciso fugir da chuva--disse o japonês ao partir levando seus algodões-doces. Roberto permaneceu sentado no meio-fio, agora ele era a única pessoa de toda a praça. Ficou ali, pensando, pensando, esperando a chuva vir lhe pegar, e que fosse de jeito, que lhe jogasse na cama, que lhe causasse uma pneumonia, uma febre que fosse, qualquer coisa que pudesse mudar sua condição, que tivesse a capacidade de trazer a primavera de volta para seu velho coração. Ao desviar os olhos para o céu, Roberto viu surgir, por dentre as nuvens cor de prata, um raio rosa-alaranjado de beleza indescritível. É como se a linda luminosidade daquele entardecer tivesse vencido a tempestade. Aquele era o seu entardecer, e ninguém veria aquela cena, só ele, o único que havia permanecido na rua. E muito naturalmente Roberto começou a sentir o que já lhe era tão familiar, sorriu por antecipar sua redenção, o alívio de ter recobrado o companheiro de tantos anos: sentado na calçada, abençoado por um céu cor de fogo, Roberto voltou a chorar.

Chorou pela falta da família, pela solidão, por tudo que não tinha sido e por tudo que não conseguia ser, pelo que não sabia, pelo que lhe fazia feliz, pelo que lhe dava medo, pela saudade, pelos prazeres simples, pelas conquistas, por todas às vezes que mentiu e por todas às vezes que se decepcionou, por culpa e por merecimento, pela dor e pelo alívio de finalmente se encontrar. E esse choro era tão diferente de todos, pela primeira vez não se tratava de um alívio, mas sim de um acerto antigo de contas com ele mesmo. Roberto sabia que a partir desse momento havia se libertado, tudo já era diferente, e ele ainda não sabia direito como lidar com essa emoção contida por tantos anos. A premissa de chuva não se cumpriu e aos poucos a praça voltou a se encher, mas ninguém foi consolar Roberto, ninguém ousou chegar perto dele. Ninguém se atreveria a profanar o proceder de um especialista.


posted by bruno at 10:03



w2.2.05


Do alto da ladeira já se via a curva que o bonde fazia sempre tão devagar. E
todo dia era a mesma velocidade, quase sempre as mesmas pessoas, e, nessa
hora em que o carro quase parava, Eugênia aproveitava para dar uma espiada
na bela vista que escorria por uma viela entre duas casas. O final de tarde
no percurso do bonde proporcionava belíssimos cartões-postais do Rio de
Janeiro e de sua mentirosa tranqüilidade de automóveis pequeninos passando
sem ruído, ao longe. O calor abrasivo do verão derretia a maquiagem, fazia
suar o buço e o resto do corpo por baixo do vestido comportado que o
trabalho exigia. O perfume das oito e pouca da manhã, ao cair do dia, se
sorvia em um aroma forte e adocicado de alguma coisa misturada, do que era
para ser com o que de fato era. A solicita agente de contabilidade era muito
mais mulher do que qualquer outra coisa quando o bonde fazia a curva, e
dessa vez a infausta guinada se demorou mais do que deveria. Os
passageiros se levantaram, afrouxaram os nós das gravatas, puxaram dos bolsos
lenços que deveriam conter a falta de dignidade que como nada o calor
carioca consegue tirar, olhavam para os lados revelando o incomodo de quererem
chegar em casa, o incomodo de se verem a mercê da circunstância inesperada e
esta não demorou a se anunciar no zumbido que subia a ladeira no sentido
contrário: em pleno mês de fevereiro, era o carnaval.

A maioria dos passageiros do bonde levantou-se dos assentos e tratou de fazer
o resto do percurso a pé, visivelmente irritados com o fato de estarem
cozinhando em ternos, vestidos e preocupações ao fim de outro dia de
trabalho, enquanto marmanjos pulavam e bebiam sem profundos questionamentos.
O condutor do bonde, acostumado com os rituais da época, tratou de abrir a
camisa, pousou o quepe no colo, e, com um palito de fósforo no canto da
boca, gesticulava para os passageiros mais insistentes que não havia jeito
de descer, enquanto ele mesmo já acompanhava sorridente a evolução do bloco.
Eugênia permaneceu estática, com os olhos atentos a tudo, bolsa no colo,
enquanto escrivões, datilógrafas, gerentes, contadores e secretárias se
estrebuchavam buscando uma solução para a privação de seu direito de chegarem
em casa no horário previsto. Era de fato curioso perceber o embate que se
fazia entre os bem vestidos e os relaxados foliões, que só conseguiam rir das
caretas dos burocratas, sérios demais para viver a beleza daquele momento.
Eugênia não queria ser como o grupo ao qual pertencia, envergonhou-se da
bolsa no colo, dos cabelos presos, queria estar com os pés no chão, queria
sentir o que aquela gente animada sentia. Num movimento muito rápido ela
saltou do bonde e já caminhava lentamente pelo meio do bloco, que a essa
altura havia cercado e abarcado o carro. Homens e mulheres fantasiados
subiam nos estribos e bancos de madeira batucando e cantando aquelas músicas
que todo mundo conhece, Eugênia caminhava. Tirou os sapatos, sentou-se num
meio-fio solitária no meio de dois grupos rivais, alheia a qualquer tipo de
embate, ela só queria ser leve. O suor lhe escorria pelas têmporas e borrava
o contorno dos olhos, fazendo-os parecerem mais expressivos do que nunca.
Aos poucos o calor transformava Eugênia e o rubor da face realçava os
contornos de sua pacata personalidade, tornava-a ainda mais interessante e
misteriosa no vestido verde água suspenso até a altura das canelas para não
arrastar a barra no chão. Não demorou muito para alguém se aperceber do
processo que ali se iniciava:

--Perdeu-se de seu grupo moça?

Eugênia assustou-se com a pergunta, estava longe em seus pensamentos. Quem
perguntava era um rapaz alto, de terno, cabelos engomados, mas que não
parecia estar irritado como os demais.

--Eu não pertenço a grupo nenhum--respondeu Eugênia irritada com a pergunta
insolente e sem cabimento.

-- Entendo. E porque você não vai pra casa como os outros?

--Acho que isso não é da sua conta!

--Não é mesmo, tem razão. Permita que eu me apresente, sou Otávio--
estendeu-lhe a mão agachando-se no meio-fio.

--Me chamo Eugênia--respondeu a moça secamente. Otávio sentou-se no chão em
frente, sem se preocupar com os fundilhos do terno.

-- Quando a vi aqui, sentada, com o olhar distante, pensei no que poderia
estar causando tamanha reflexão, e que provavelmente seus questionamentos se
assemelham muito aos que eu mesmo tenho me feito.

-- Desculpe, não sei do que o senhor está falando.

--Três dias pra sorrir, um ano pra chorar, mas dessa vez a ilusão não vai me
pegar... esse é um trecho de uma música muito bonita sobre o carnaval, quer
ouvir? --Eugênia moveu a cabeça positivamente sem demonstrar muito interesse. O rapaz começou então a cantar, um pouco encabulado:

-- No carnaval, não vou querer me fantasiar.

Não vou mais me vestir de rei, não vou tentar colorir a dor.

E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu sou-- Eugênia,
surpreendida com a intensidade dos versos, interrompeu:

-- E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu
sou...--repetiu lentamente para si mesma.

-- Então? É disso que eu falo! Quem veste a fantasia, cara Eugênia? Somos
nós ou eles? Pelo menos eles sabem rir de suas mazelas, são três dias para
se esquecer de tudo. Eu mesmo nunca fui exatamente um folião mas, aqui,
impedido de descer pra casa por um bando de homens bêbados vestidos
pateticamente, dou graças a Deus por perceber o quão infame é minha vida.
Preocupado em não sujar o terno, em não chegar atrasado, em redigir
relatórios, memorandos, agradar ao chefe, ser produtivo, isso tudo é uma
bobagem! Hoje vou descer essa ladeira de uma forma diferente, vai ser a pé.
E sem gravata! --Otávio atirou a gravata para cima e foi aplaudido por três
homens que assistiam a cena de longe, sentados no bar.

-- Vamos, desça comigo, me faça companhia.

As palavras de Otávio surtiram algum efeito sobre Eugênia, ela levantou e
seguiu com o rapaz. Na descida conversaram sobre trabalho, vida e carnaval.
Eugênia mais ouvia do que falava, aquilo tudo que estava acontecendo era um
processo e ela ainda não se sentia totalmente à vontade com o imponderável,
com a sensação de não querer mais prever o que a esperaria a cada curva que a rua
sinuosa faz até ganhar o asfalto. A mesma rua de todos os dias, mas agora
sob um novo ponto de vista. E quando chegasse lá embaixo o que seria dela?
Continuaria aquela noite na companhia de um homem estranho ou tomaria uma
outra condução rumo a segurança da rotina que ela tão bem conhecia? No momento da decisão Eugênia optou pelo óbvio:

-- Aqui eu me despeço. Obrigada pela companhia.

-- E eu não te vejo mais? Permita que eu te veja pelo menos mais uma vez que seja --disse
Otávio tentando conter o entusiasmo provocado pelo encontro.--Amanhã haverá um baile, esteja aqui nessa esquina às nove horas, venha fantasiada, estarei te
esperando.

Eugênia sinalizou com a cabeça e entrou no ônibus que a levaria até sua
casa. Chegando em seu apartamento cumpriu as tarefas domiciliares pensando
no cheiro daquela esquina onde Otávio a abordou. O cheiro do carnaval.
Cerveja, confete, urina, suor, perfume, pó de arroz, aquele cheiro de três
dias por ano. Tomou um banho para refrescar-se ouvindo ao longe o bumbo de
marcação de algum bloco, em um boteco qualquer, na esquina de qualquer rua,
a cidade toda começava a se transformar naquela noite de sexta-feira, instantes antes da grande folia. E ela, que sempre preferiu incomodar-se e
ignorar o carnaval, dessa vez queria vivê-lo. Intensamente. Enquanto a água
gelada caía em sua cabeça, Eugênia repetia a frase da música:

-- E se alguém quiser me aplaudir, vai ter que ser assim como eu sou...

Não conseguia lembrar-se dos outros versos, só desta parte. Foi dormir
pensando nessa frase e acordou numa manhã cinzenta, com cheiro de carnaval.

Na hora combinada dirigiu-se para a esquina onde encontraria Otávio, e lá
estava ele, fumando um cigarro escorado num poste, fantasiado de sheik
árabe. Eugênia estava vestida dela própria; escolheu no armário sua melhor
roupa de trabalho e vestiu-a, como se fosse encontrar o presidente da
empresa: meia calça, brincos de pérola, sapato de verniz, ela era tão
verossímil como agente de contabilidade que ninguém ousaria pensar que
aquilo não se tratava de uma fantasia. Assim como na música, que não saía de
sua cabeça, Eugênia queria ser aplaudida assim, como ela própria. Antes de
atravessar a rua para encontrar Otávio pensou que o rapaz já havia cumprido
seu papel na vida dela e não hesitou em deixá-lo plantado na esquina a sua
espera, agir de outra forma seria muito desgastante. Partiu para o lado
oposto, sem rumo, seguindo o cheiro do carnaval.

Deparou-se com um clube, provavelmente o baile para o qual fora convidada, e
entrou sozinha. Lá dentro encabulou-se por estar só, mulher solteira num baile, mas
toda a experiência desde o dia anterior já lhe era tão estranha que nem
cabia mais se questionar sobre o que quer que fosse, tratou então de beber e esquecer
de sua condição. Era como num filme: ela se via agindo de um jeito que não
sabia aonde a levaria, e adorava essa sensação. Não sabia beber, não tinha o
hábito, não sabia nem o que pedir no bar e foi, aos trancos, bebendo o tanto que
conseguia. Eugênia não conhecia também o seu limite para o álcool e em
poucos minutos já se sentia mais leve, e a sensação de liberdade que a
acompanhava era indiscritível. Em menos de uma hora estava na pista dançando com
a multidão de foliões, não tinha tempo para se julgar, e as conclusões vinham muito depois
dos poucos questionamentos. Rapazes tomavam-na para dançar e ela rodava na mão de homens que nunca mais veria, que não sabia o nome. Gostou
de ser conduzida; fez-se de boneca, fez-se de passiva, fez-se de distraída
quando um ou outro rapaz aproveitou para colar o corpo no dela ou mesmo
colocou a mão em algum lugar que ela não deveria permitir. O juízo estava de folga e a ordem era ser leve e despreocupada. Quase todos
dançaram com ela, vários tentaram beijá-la, alguns conseguiram, e Eugênia
foi de muitos homens naquela noite. Era levada, muito mais pela vontade do que pelo álcool.

A claridade atravessava suas pálpebras e foi quando ela se viu deitada no
gramado de uma praça. As pernas sujas de lama, o vestindo desconjuntado,
rasgado na manga, ninguém por perto para dizer o que havia acontecido. Ela
tão pouco se lembrava, as recordações da noite anterior se encerravam ainda
no baile, nenhuma pista de como ela havia parado naquela praça, que ela nem
conhecia. Sentou-se na grama com alguma dificuldade devido ao peso da cabeça
e lá ficou pensando em tudo o que havia acontecido desde aquele bonde no
caminho de volta do trabalho. Na praça crianças fantasiadas brincavam com
seus pais e alguns olhares condenavam sua condição. E não havia o que fazer,
não havia como se recompor, como justificar o cabelo desgrenhado ou a
maquiagem borrada aquela hora da manhã. Levantou-se e caminhou com altivez pelo bairro
desconhecido sem querer perguntar onde estava. No espelho de uma padaria se
olhou e causou-lhe espanto aquela Eugênia transfigurada pela noite anterior.
Ao mesmo tempo estranha e familiar, sentiu vontade de sorrir por se imaginar
tão plural. Não havia nada de entediante ou previsível na imagem daquela
bela mulher. O que havia era um alívio de não saber quem era, de
surpreender-se consigo mesma. Continuou vagando pelas ruas no rastro do
cheiro do carnaval, demorou muito para perceber que o cheiro agora vinha de
dentro dela mesma.


posted by bruno at 18:33



w31.12.04


Mal se agüentou chegar da escola, o pequeno Francisco cruzou a sala da casa que nem flecha e na cozinha, trocando a ordem da frase tamanha excitação, gritou: "vou plantar uma árvore, me arruma feijão!". A cozinheira, sem muito entender, colocou um punhado de quatro feijões na pequenina mão do menino, que guardou as sementes no bolso frontal de seu macacão e ainda da cozinha pegou um copo, enchendo-o com dois dedos d´água que não bebeu, e, de novo em disparada, seguiu para o banheiro onde abriu com todo o cuidado, debruçando-se sobre a pia na ponta dos pés, o pote de vidro que a mãe mandou não mexer, e desse puxou um chumaço de algodão. Os feijões atirou n´água e o algodão pousou por cima: "agora tenho que deixar no sol e esperar minha árvore". Fora a professora de Francisco que o incentivara a realizar o experimento; ela havia falado que o próximo ano seria um tempo de prosperidade para o Brasil, época de colher os frutos provenientes dos sacrifícios que haviam sido feitos nos últimos anos. Usou como metáfora o plantio de uma muda e os cuidados que esta necessita para se tornar uma árvore. Francisco quis fazer parte disso, assim como o Brasil ele queria ter a sua árvore, e a professora lhe falou sobre o pé de feijão. O copo foi meticulosamente posto sobre a arca da sala, bem debaixo da janela, perto do sol e de seus apreensivos olhos. Por muitos dias Francisco observou o seu experimento: às vezes eram horas sentado numa cadeira com o rosto apoiado nas mãos, esperando que seu pé de feijão aparecesse, e nada. Frustrava-se com o fato de não ter logo sua árvore, a que ele mesmo supostamente daria vida. No lugar de uma árvore, que ele não entendia como poderia sair de dentro de um copo, via-se um dos feijões aberto em duas bandas, os outros três sem alteração e o algodão já escuro embebido de água. Os amigos da escola caçoavam dele e faziam pouco caso de seu experimento: "onde já se viu árvore sem terra? Ainda mais dentro de um copo?". Francisco fingia que não se importava, mas quando sentava no sofá para assistir tv era um olho no desenho e outro no copo. Os dias continuaram passando e de dentro do feijão partido começou a nascer um fiapinho verde, que de árvore não tinha nada, e Francisco chegou a pensar que a professora havia feito-o de bobo quando ensinou os passos para se criar em casa um pé de feijão. Lembrou, porém, que ela havia dito que era preciso esperar um pouco, mas para ele todo tempo do mundo já havia se esgotado. No alto de sua impaciência infantil, na idade onde uma semana leva um mês, Francisco decidiu amargar sua própria derrota e tacou longe seu copo de pé de feijão. Ouviu o vidro estilhaçar na calçada atrás da casa e disse aos colegas que esse negócio de prosperidade e feijão era muito complicado, que a pipa sim era um bom divertimento. E foram dias e dias de pipa, de sol e de vento. Às vezes a pipa se enrolava nos fios, às vezes era duro ouvir a risada dos meninos da rua da frente e ver sua pipa ir embora enrolada no rabo de outra, mas certamente aquilo tudo era muito melhor do que o tal pé de feijão. Um dia, no entanto, foi a sua pipa que trouxe a outra - e nem era com a estampa do seu time - mas dava orgulho sair vitorioso daquela disputa. A meninada da rua gritava de euforia e Francisco trazia heroicamente em seu carretel a pipa de alguém da rua da frente, girando como um pião, sem rabiola, ao sabor do vento que lhe fora favorável. Quase no chão a pipa conquistada desgarrou da sua e por sorte caiu que nem pluma no quintal. Francisco pulou a mureta dos fundos da casa para buscar seu troféu e ali estava, por entre telhas, sacos plásticos, móveis antigos e cascos de refrigerante, a pipa abatida e ao lado dela um copo quebrado e um caule verde, fininho e espichado com feijõezinhos pendurados. O menino não podia acreditar em seus olhos, pois foi ali, naquele instante, que aprendeu o que era um pé de feijão. Ele, que já havia se esquecido do experimento, ao atirar o copo pela janela, permitiu que no naco de terra que havia entre um bloco e outro de cimento da calçada crescesse seu pé de feijão. Realmente aquela delicada plantinha em nada se parecia com a árvore de feijões que ele havia imaginado, mas era o seu pé de feijão. Os amigos não viram graça nenhuma e logo voltaram para suas pipas. Era franzino, não dava fruta, não fazia sombra e nem se podia subir nele, mas o pequeno Francisco era o único em seu bairro que tinha em casa um pé de feijão.

obs: esse texto foi encomendado pelo Jornal do Brasil para um caderno especial que circulou hoje. Ziraldo, Tom Zé, Clara Averbuck, Domingos Oliveira e eu fizemos perspectivas para o ano de 2005.

posted by bruno at 09:15



w28.9.04


Já passava das onze e a porta do quarto continuava fechada. Há essa hora a casa já estava em plena atividade e normalmente era ele quem começava o alvoroço, mas hoje não.

-- Mãe, porque que o pai tá dormindo tanto?
-- Não sei filho, deve estar cansado.
-- Mas eu nunca vi o pai dormir tanto assim, vou lá acordar ele...
-- Deixa o seu pai em paz, menino! Se está dormindo até mais tarde é porque devia estar precisando, vai arrumar o que fazer!

O problema era que ela mesma não se convencia do cansaço do marido. Porque ele, que acordava pontualmente às seis e quinze todos os dias, quando tinha que varar a noite na marcenaria por motivo de entrega grande acordava no máximo as oito e nunca, em doze anos de casamento, havia dormido até àquela hora. Marieta decidiu espiar o quarto para ver o que estava acontecendo; abriu a porta com cuidado e encontrou o marido deitado, dormindo um sono tranqüilo apesar do barulho de quase meio dia que fazia do lado de fora. Fechou a porta e tratou de por a preocupação para dormir junto com o marido preguiçoso.

O almoço foi servido e o dia seguiu como um sábado qualquer. As vizinhas que passavam à tarde para por o papo em dia estranharam a ausência de Antonio, que sempre oferecia um copo de café passado na hora. Perguntaram, mas Marieta não soube o que dizer porque começou a ser constrangedor o marido dormir tanto, justo num sábado de folga quando todos os vizinhos estavam em casa com suas famílias, o marido dela estranhamente ainda dormia. As quatro e vinte da tarde os filhos queriam passear e Marieta decidiu que a postura de respeitar a sonolência excessiva do marido se tornara omissão e que já era um abuso Antonio decidir dormir tanto sem ao menos ter avisado a família. Ela entrou de novo no quarto, dessa vez sem nenhum cuidado, e da porta mesmo, em tom ríspido convocou o marido a se levantar:

-- Antonio, chega de dormir! Seus filhos estão te esperando para passear. Daqui a pouco é noite e você aí dormindo, perdeu o dia todo!

Ele nem se mexeu. Marieta então se aproximou do marido e cutucou seu braço, nada. Deu tapinha na cara, sacudiu o tronco e Antonio não esboçava nenhum tipo de reação. A essa altura os filhos e até o cachorro já estavam dentro do quarto chamando, beliscando, até água jogaram no rosto de Antonio, e nada. Depois de muita insistência e nenhuma reação Marieta sentou-se aos pés da cama e com a voz embargada proferiu o veredicto que ninguém queria ouvir:

-- Crianças, o pai de vocês está morto.

Em pouco tempo a pequena casa estava tomada de vizinhos. Havia bolo, café e velas, crianças chorando, padre, preto de luto, véu e terço. Marieta, inconformada, recebia o conforto das vizinhas e todos procuravam uma explicação para uma sina tão triste, a morte repentina de um homem jovem, forte e saudável que gozava de ótima saúde no dia anterior.

Os amigos da marcenaria fizeram questão de velar o corpo do colega e um deles, que era o melhor amigo de Antonio, resolveu ter com ele uma última prosa onde assegurou ao defunto que nada faltaria a sua família e que ninguém na vila se esqueceria do grande homem que ele havia sido. Prosa encerrada o amigo carinhosamente pôs a mão no rosto de Antonio:

-- Ué? Nunca vi morto que não fosse gelado... -- chegou mais perto e pôs os dedos nas narinas de Antonio -- nem que respirasse! Ele não está morto nada, gente!

Num instante o clima funesto que envolvia a casa transformou-se em feira livre e todos os vizinhos e amigos correram de uma só vez para o quartinho. Marieta estava na cozinha e quando ouviu a gritaria largou o que estava fazendo e pra lá foi também. Um por um dos presentes do velório fizeram questão de colocar os dedos nas narinas de Antonio e constataram que de fato ele não podia estar morto. Agora se chorava era de alegria e foi mais ou menos nesse momento que chegou o dono da marcenaria, encharcado de suor, com um caixão enorme nas costas. Ele sozinho pousou-o num canto da sala e não conseguiu esconder o espanto com a euforia dos presentes. Marieta veio sorrindo e enxugando as lágrimas para receber o chefe do marido:

-- Marieta, ofereço a sua família um último conforto num momento tão difícil. Esse caixão é uma pequena retribuição a tantos anos de amizade e serviços prestados por seu marido. Que ele esteja em paz.

Marieta agradeceu tentando assumir o tom que se espera de uma viúva no velório de seu próprio marido.

-- Muito obrigado Seu Juvenal mas acontece que acabamos de constatar que o Antonio não morreu, ele está apenas dormindo.

O chefe arregalou os olhos e sorriu, sem saber direito como reagir a uma notícia tão inusitada:

-- Nossa, que benção..., que susto que o Antonio nos deu, mas onde está o dorminhoco agora?

-- Ele ainda está dormindo.

Aos poucos todos foram embora e no dia seguinte ate o médico do posto apareceu para ver o caso raro:

-- Morto posso dizer que ele não está mesmo, me parece estar dormindo normalmente. Sugiro que nada seja feito a não ser esperar.

O caixão que ainda estava na sala foi levado para os fundos da casa e em pouco tempo já era o lugar preferido do cachorro pra dormir. As crianças também brincavam de navio dentro dele quando a mãe não estava por perto. A vida na vila e na própria casa aos poucos foi voltando ao normal. Nove dias se passaram e Antonio continuava a dormir seu sono profundo.

-- Parece que está sonhando, a expressão do rosto dele é serena -- disse Marieta a uma vizinha em uma das muitas visitas que fazia ao quarto durante o dia para observar o marido dormindo. Ela e muitos vizinhos às vezes passavam por lá a fim de perceber se havia algum vestígio a ser descoberto, como se o sono de mais de uma semana que acometeu Antonio fosse uma charada pronta para ser desvendada a qualquer instante. Ele dormia tão tranqüilamente que sua expressão desencorajava qualquer iniciativa de acordá-lo, inibia qualquer tipo de preocupação, e assim os dias passaram permitindo sutilmente que ocorresse esse estranho hiato na vida da família. O caixão continuava nos fundos da casa e ninguém esperava usá-lo, mas ninguém, principalmente as crianças da vizinhança, esperavam que ele tivesse outro paradeiro.

No décimo primeiro dia apareceu na porta da casa o dono da vendinha:

-- Sabe como é Dona Marieta, eu não queria incomodar, sei que o momento não é dos mais apropriados mas o Antonio havia deixado um pendura de umas cachacinhas lá no meu estabelecimento e como o mês está acabando peço para a senhora acertar.

Marieta nem sabia que o marido bebia cachaça, mas acreditou no dono da vendinha, que já conhecia de longa data. Pagou na hora a suposta conta. Nessa mesma tarde foi com estranhamento que o carteiro trouxe um telegrama de um tal de Horácio endereçada a Antonio. Dada a situação Marieta não hesitou em abrir, a mensagem dizia:

Antonio, Rosa aguarda dinheiro. Não fuja suas obrigações. Sabemos onde você mora.

O que exatamente significa essa mensagem? Quem é Horácio, e quem é Rosa? Que dinheiro Antonio deve para Rosa? Não foi difícil constatar que Rosa muito provavelmente era uma mulher que Antonio sustentava. Marieta amassou o telegrama contra o peito e jurou matar o marido se ele ainda não estivesse morto. Entrou no quarto aos trancos e a expressão suave de Antonio dormindo agora lhe parecia uma provocação:

-- Miserável, miserável! Quando você acordar você vai ver! Só não te ponho na sarjeta agora mesmo por causa de seus filhos.

A partir desse dia Marieta não entrou mais no quarto. As notícias correram a vila e em poucas horas todos já sabiam que Antonio, ao contrário do que sempre se pensou dele, gostava de cachaça e de mulher. Marieta já não sabia mais o que pensar do marido e nem chegou a se surpreender quando o vizinho da rua de baixo veio buscar o jumentinho que Antonio havia dito ter comprado para levar as crianças na escola e trazer a água. Sem pagamento, o jumento voltou para o antigo proprietário. Também não causou espanto a ninguém quando o vigario da paróquia veio cobrar a reforma do confessionário pela qual Antonio recebeu adiantado, mas nunca teve tempo para fazer. E o que dizer aos colegas de marcenaria que perguntavam a Marieta sobre o paradeiro do dinheiro confiado a Antonio para comprar uma serradeira nova na capital? Marieta sorriu ironicamente e mandou que eles fossem cobrar do morto que não morreu. Mais de quinze dias haviam se passado e Antonio continuava dormindo. Já se ouvia dizer à boca miúda que tinha gente querendo enterrá-lo mesmo respirando. O chefe de família respeitável e admirado por todos sustentava seu prestígio sabe-se lá a que preço ou há quanto tempo, mas, ao entrar em seu sono profundo, deixou vir à tona um Antonio que ninguém supunha existir.

O dinheiro começou a faltar na casa de Marieta e também faltou quem se apresentasse para emprestar algum. Ela passava os dias inteiros lavando roupa de fora no tanque, só parava para atender um ou outro que tinha alguma dívida para cobrar de seu adormecido marido. Passou a anotar as requisições em pedacinhos de papel que jogava sobre o peito de Antonio. Em pouco tempo a cama mais parecia uma mesa de escritório. Tratou também de proibir as crianças e o cachorro das brincadeiras dentro do caixão porque esse se revelou um ótimo depósito para as roupas lavadas e passadas que agora se somavam em cada vez maiores quantidades.

Nessa mesma semana quem foi bater na casa de Marieta foi a tal de Rosa, de mãos dadas com um garotinho engraçadinho que tinha todo o jeito de Antonio.

-- É aqui que mora o Antonio Damasceno? -- perguntou a mulher se apercebendo de toda a situação. Um dos filhinhos de Marieta já foi chegando no portão com lápis e papel na mão e, como se tornara de costume, orientou a mulher a escrever o nome e a dívida que o pai a procuraria assim que acordasse.

-- Antonio está dormindo faz quase duas semanas -- disse Marieta num misto de raiva e compaixão.

-- Mas como? Ele está morto? -- perguntou Rosa relaxando a altivez com que tinha chegado na vila.

-- Morto ele não está, mas não se sabe quando ou mesmo se algum dias ele vai acordar. Pode deixar que eu mando ele te procurar caso isso um dia aconteça ¿ disse secamente Marieta enquanto entrava de volta na casa.

No dia seguinte Marieta acordou para fazer o café da manhã dos filhos, função que assim como tantas outras vieram a ser de sua incumbência desde que o marido entrou no sono profundo que já durava longos dezessete dias. Ao adentrar a cozinha encontrou a mesa posta e Antonio de costas no fogão fritando ovos. Ela pôs a mão na boca escancarada de surpresa e seus olhos marejaram de felicidade. Nem pode se mexer de tanta emoção e os filhos entraram na cozinha correndo e se abraçaram ao pai com tanta intensidade que a frigideira quase caiu do fogão e causou um acidente.

-- Mas o que foi que aconteceu nessa casa? Perguntou Antonio achando graça no carinho excessivo dos filhos -- o que houve por aqui Marieta?

A mulher que até agora nada tinha dito pensou o que iria responder ao marido. Tanta coisa havia acontecido enquanto ele dormia, tanta coisa ela passou a saber dele, que se fosse seguir a risca o que havia planejado para caso esse momento acontecesse, essa teria sido a última manhã que Antonio passaria naquela casa. Mas não era assim que seu coração sentia; as tantas vezes que ela viu em sua mente aquele re-encontro acontecer e tudo que ensaiou dizer a Antonio havia se esvaído porque Marieta só pensava em abraçar seu marido e celebrar com ele a vida que ele nem ao menos sabia o quanto esteve próxima de lhe escapar. E nessa história que parecia um pesadelo, que de tão irreal escapava aos toque do verrosímil, não custava muito a ela pensar que tudo que se sucedera no último mês tratava-se apenas de um sonho ruim. Por certo para a vila seria mais difícil perdoar as falhas de Antonio mas em nome dos filhos e do amor que sentia por aquele homem Marieta decidiu relevar. Percebeu-se também que o ímpeto de deixar a vida descabida do marido mentiroso para trás poderia passar e que ela mesma tinha grandes chances de mudar de idéia e deixar a realidade adentrar aquele mundo de sonho que insistia em perseguí-los caso não agisse logo.

-- Vamos Antonio, vamos! Arrume suas coisas, precisamos partir já dessa casa.

Em poucos minutos Antonio e sua família deixavam a casa, antes mesmo de amanhecer, descendo a rua principal da vila caminhando e carregando tudo que conseguiram por dentro do caixão.

posted by bruno at 14:26



w12.8.04


Na semana passada estiveram por aqui muitas pessoas, eu ouvi daqui de dentro. Eu fico passando roupa na parte detrás da casa, mas, com o silêncio que costuma fazer aqui, não é difícil perceber quando alguma coisa está fora do normal. É sempre assim, três dias do ano, tudo muda, até demais. Daí eu não sei se nesses dias eu fico em casa ou se saio pra rua que nem todo mundo faz. Porque gosto da minha vida, gosto da minha cidade que só tem um telefone público e gosto de ver todo dia as mesmas pessoas, ouvir os mesmos ruídos, nas mesmas horas do dia. Cumprimentar os vizinhos e saber tudo que vai acontecer até a hora de dormir. Gosto de ir na praia vazia e ouvir o barulho do mar nas pedras, e ver as pedras redondas de tantas milhões de ondas que ali já bateram. Gosto de saber que a pé eu ando toda a cidade, e que vejo tudo que tem pra ser visto. Gosto de saber que meus filhos estão por perto e que nada de mal vai lhes acontecer. Assim me sinto segura, assim meu mundo está em ordem e isso me faz feliz. Aqui todo mundo me conhece e me entende, aqui todo mundo compra meus pastelzinhos e nunca reclamam, porque eu sempre faço os que todo mundo gosta, eu já sei quais são. E não é preciso ter muito dinheiro para se viver aqui, porque não há o que comprar nem onde gastar e no mais um sempre ajuda o outro. Quando preciso ir além o Jacinto da padaria me empresta a bicicleta dele, porque ele pode fazer as entregas a pé, e eu vou me embora. Primeiro devagar, cumprimentando as pessoas e depois que eu pego a estrada rápido, muito rápido, o mais rápido que consigo, o mais rápido que minhas saias me permitem pedalar, daí eu canso. Eu vejo a minha cidade ficando pequena no horizonte e me dá vontade de voltar correndo, uma saudade danada. E se alguém precisar falar comigo? E se alguém quiser comprar pastelzinho? Mas semana passada foram aqueles três dias do ano em que a cidade fica de pernas pro ar. Na padaria tem fila pra buscar o pão, e no telefone público tem fila pra falar, e é tanto carro que passa na rua! A praia fica cheia, diferente, é tudo diferente. Não posso dizer que não penso nisso, nesses três dias do ano. Já faltando um mês fico imaginando como vai ser e, apesar de não gostar muito desses tempos, sempre espreito a janela para ver como é: como são as pessoas, como elas estão vestidas, o que elas dizem e como elas dizem. Na frente da minha casa tem um jardim, é pequeno, mas muito bonito. Gastei anos tentando conseguir as sementes das flores que eu via nas revistas, pensando em cada cor, em cada formato, na posição de cada uma na terra, no aroma que elas iriam espalhar pelo ar. E todo dia tem alguma coisa pra fazer no jardim; cortar um ramo feio, podar um arbusto, amarrar um galho pra dar firmeza. Se não tiver nada pra ser feito eu invento alguma coisa pra fazer. O jardim, depois da minha família, é a coisa que eu mais gosto no mundo. A maioria das pessoas acha bonito, até elogiam, mas, sinceramente, acho que todo mundo já se acostumou com a beleza do meu jardim. A única pessoa que percebe todas as sutilezas que nele há sou eu, e eu já me acostumei com isso também. Eu faço o jardim pra mim. Mas durante aqueles três dias do ano eu sempre tenho um cuidado especial. Porque minha casa é perto do único restaurante que tem por aqui, e nesses dias muita gente passa pela minha calçada. E eu fico na sala reparando em quem repara no meu jardim. Dessa vez passou um moço, moço novo, que devia ser de longe. Ele olhou bem pro meu jardim e parou em frente a minha casa. A maioria das pessoas olha mas não para, o moço parou. Senti até um frio na espinha. Será que ele ia elogiar o meu jardim? Será que ele queria me fazer uma pergunta? E se eu não soubesse responder? Ele me viu dentro de casa, tenho certeza, mas eu fui pra cozinha e por lá fiquei um bom tempo, até ter certeza que ele tinha ido embora. Eu não sei o que o moço queria e nem nunca vou saber. E assim os três dias passaram, os anos passaram e meu jardim vai continuar aqui, se Deus quiser.

posted by bruno at 20:07



w20.7.04


Hoje estava eu adentrando uma estação de metrô quando me deparei com um enorme duto de ventilação, amarelo como o sol e grande como um submarino. Parecia mesmo alguma estalação militar russa dos filmes do James Bond ou mesmo uma peça que poderia figurar no Laranja Mecânica, mas era apenas um duto de ventilação. Eu não cheguei a essa mera conclusão sem antes pensar se tratava-se ou não de uma peça de arte. De repente é uma peça de arte e eu não percebi, ou então um duto e uma peça de arte ao mesmo tempo ou então a tinta amarela, que me remeteu à dúvida, se deva apenas ao fato de ter sobrado de uma obra na agência dos correios, por exemplo. Daí eu comecei a pensar na função da arte e na própria arte sem função, que parece ser o caso do nosso duto aqui. Se era ou não a intenção do arquiteto ou de sei lá quem causar essa dúvida, ou menos chamar a minha atenção de usuário apressado, conseguiu, mas, o que fazer disso, depende de mim. Machado de Assis disse: muitas vezes o drama está no espectador e não no palco, e de fato essa leitura da arte é muito pessoal. Recentemente um amigo meu, que é casado com uma artista plástica, me contou uma história que ilustra bem isso; a esposa dele havia feito uma instalação num parque e acabou esquecendo o casaco no local. A faxineira passou pelo lugar e constatou que o casaco era da artista e, para facilitar as coisas, resolveu colocar o casaco por sobre a instalação, para que a artista o visse tão logo chegasse no dia seguinte. Talvez algumas pessoas tenham passado nesse momento e achado incrível aquela casaco exposto, ou mesmo terem encontrado uma grande simbologia naquela disposição displiscente de uma peça de vestuário. Nesse mundo de hoje alguém vai questionar uma instalação? Nada mais é esquisito ou impróprio, e o julgamento disso tudo é muito relativo. Vocês já sabem que eu tenho dificuldade com as artes plásticas, mas juro que estou tentando ser mais generoso com essa forma de expressão. Existe muita coisa boa num mar de coisa ruim. Agora alguém me explica pelo amor de Deus o que são aquelas coisas olímpicas expostas na praia de Copacabana?! Jesus amado. É porque muita coisa que não tem explicação acaba virando obra de arte, e esse olhar artístico sobre o cotidano às vezes fica turvo, nos confunde. Dizia um amigo meu de faculdade que era muito difícil, à distância, diferenciar os terminais de consulta dos shoppings center das latas de lixo, o design era parecido. Hoje tudo tem design, mesmo o que não corre tem que ser aerodinâmico, mesmo o que não se pega precisa ser anatômico. Acho que eu sou antigo, gostava daquela diversidade estética da época em que design era só uma palavra para designar móveis mais caros. Os carros dessa época tinham personalidade: Fusca, Chevette, Brasília, Kombi: agora só existem três tipos, o bolinha, o caminhonete e o sedan. Desafio qualquer pessoa a me mostrar um carro prét a porté (ou seja, carros que andam na rua e não aqueles de revista) que não seja bolinha, caminhonete ou sedan. A diferenciação fica mesmo na cor e no preço, porque afinal de contas tudo é bolinha, caminhonete ou sedan. E tudo é arte. Só para encerrar, outra frase do sabido Machado de Assis: De todas as coisas humanas a única que tem seu fim em si mesma é a arte

posted by bruno at 20:31



w11.7.04


Outro dia eu estava por aí e ouvi o seguinte comentário:

-- Tá vendo aquela menina ali? Ela é irmã da 12a encarnação do Buda.

O Comentário na hora foi um pouco indigesto, até porque o lugar, escuro e com música alta, em nada lembrava o budismo, ou mesmo o Buda. A pessoa que me apontou a irmã da encarnação, se é que essa não é uma forma pejorativa de se referir ao rapaz, me disse que a mãe de ambos é budista e acabou descobrindo por acaso, se é também que existe acaso nessa história, que o seu próprio filho era a 12a encarnação do Buda. Pois então o rapaz, que na época tinha 12 anos, mudou-se para o Tibet e lá iniciou sua evolução espiritual, hoje tem 18 anos. Loucura, né? Fiquei imaginando o que é para uma criança descobrir que é a reencarnação de alguém, ainda mais do ícone máximo de uma religião com tantos seguidores pelo mundo. Imagina a responsabilidade de ser a re-representação de alguém que já foi, e foi muito bem. Devem ser muitas as obrigações da nova vida de reencarnação do Buda, ainda mais numa idade em que as crianças não sabem sequer o que significa essa palavra, e certamente prefeririam ser a reencarnação do Pokemón ou do Ronaldinho. Imaginei ainda o que foi crescer numa casa onde seu irmão de alguma forma é o Buda! Olha, o meu irmão é promotor e já é uma pressão enorme, no mínimo um exemplo a ser seguido, imagina tendo o careca barrigudinho como parâmetro. Fiquei pensando em algumas frases, algumas situações que podem ter feito parte da vida do pequeno buda:

-- Deixa o seu irmão ficar com o quarto para meditar que a causa é nobre!
-- Então vamos guardar suas bonecas no armário e você dorme na sala porque seu irmão precisa de um altar.
-- Ah, você vai querer a Mansão da Barbie de natal? Seu irmão pediu a paz entre os povos.
-- Não temos condições financeiras de bancar seu curso de inglês e o de chinês arcaico do seu irmão.
-- Nada de viagem para Disney, esse ano vamos para a Mongolia.
-- Ele não pode ter notas melhores na escola porque anda concentrado em fazer um mundo melhor.
-- (na pelada da escola) Sou do time do Buda!
-- passa o sal para o seu irmão porque ele ainda não consegue pegar com o poder da mente.
-- Vamos no shopping eu, cabelo, franzino, boca e Buda.

Enfim, deve ter sido uma época confusa para amigos e parentes. A verdade é que eu imagino que o rapaz se sinta muito honrado em ser uma pessoa tão especial. Brincadeiras a parte, faço votos que consiga prosperar e ajudar aos outros.




posted by bruno at 09:38



w6.7.04


Quando eu tinha menos de 20 anos e estudava na faculdade, apesar de ter optado por publicidade, cursei algumas matérias de jornalismo, que fazem parte do currículo base do curso de comunicação. Lá o professor Israel Tabak me falou pela primeira vez em ética na imprensa. Um assunto um tanto complicado, eu diria, que já na época me despertou para a imparcialidade que a imprensa tanto persegue e para o consequente problema do ser humano ser por natureza parcial. E é exatamente isso que faz da profissão de jornalista algo de muita responsabilidade. Diante dos últimos acontecimentos, vcs, jornalistas que eu sei que me visitam, talvez precisem reconsiderar seus critérios, ou pelo menos se familiarizarem com alguns termos. Se a carapuça servir...

1) Briga é diferente de agressão.
2) Não se supõem algo que foi dito; página de jornal não é balcão de boutequim.
3) Quando se publica uma declaração de alguém é de bom tom que essa pessoa tenha nome e sobrenome, só para a gente achar que ela de fato existe.
4) Quando se diz que alguém criticou alguém é interessante dizer qual foi essa crítica, porque o contrário disso chama-se irresponsabilidade.

A presença de pelo menos um desses elementos numa matéria jornalística é um desserviço à sociedade. Trata-se de tentar trazer à luz uma questão jogando areia nos olhos dos leitores. Vamos lá, amigos, um pouco de auto-crítica.

posted by bruno at 20:09